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palimpsesto

Para T. S. Eliot Só aqueles que se arriscam a ir longe demais - dizes - podem descobrir até onde se pode ir , como quem deixa cair uma moeda  num poço e escuta o eco  esperando que lhe devolva  em detalhe e com rigor a cartografia anotada. A cidade continua a respirar em fragmentos: luzes intermitentes,  vozes sem  acabar frases, elétricos rangendo memórias mal tratadas. E nós, com mãos ocupadas em pequenos medos úteis, medimos distâncias com réguas quebradas, traçamos limites no pó de coisas apagadas. Ir longe demais não é um gesto heróico. Antes é um desvio imperceptível, pegada que não pede abrigo ao chão. Há sempre um ponto onde o nome das coisas falha: o mar já não é infinito,  o corpo já não é casa, o tempo esquece a sua própria cronologia. E é aí nessa margem onde o sentido se dissolve como tinta em água turva,  que  algo  começa a falar  sem linguagem. Talvez nada se descubra. Talvez o longe seja um espelho atras...

Mutável

You won't find the same person twice, not even in the same person . Mahmoud Darwish não és     o mesmo (apesar     do nome) passas            por ti em letras que se soltam e te fazem          - outros - falhas            a curva (o carro            derrapa) & nesse erro         floresces

ego

estou cansado da pequena coroa que insistimos em polir ego          ego                 ego   uma sala de espelhos   a respirar demasiado  perto o meu o teu o de todos  fome miúda & ruidosa de ser um nome que ecoa mas escuta - a relva não se apresenta o céu não se impõe ambos são o que basta (& sussurro  mais alto que o desejo) talvez  possamos tentar ser quase nada & enfim silenciar o nome 

perfeição

perfeito então - há poemas que sabem quando param este ficou exactamente no ponto (quase nada e já é tudo)

o humor

O humor é a delicadeza do desespero. Boris Vian o humor é essa coisa pequena (que insiste) em acender luz no meio do des es pe ro como quem ri - quase nada - e tudo muda

devagar

amo o que chega devagar sem nome o tempo não rouba - despe o excesso solta em nós o que fica

Ressurreição

Para  Rumi         Já morri  tantas vezes         antes de  morrer:  no primeiro    abandono,  no primeiro beijo,   na palavra que roubei, no espelho que silenciei -     cada morte uma semente que ignorei.  Digam que alguém    me levou consigo      ao colher o fruto     que amadureceu. Ressurreição  não é  túmulo  aberto,                  sudário  dobrado.  É silêncio   depois do grito,  depois do nome, a luz: regresso  à  terra   sem pressa de ser árvore. (como  a cinza e a fénix,      o grão que apodrece       o pão que endurece).         Morro pela noite     como quem morre pela manhã.             Sou a criança que aprende ...

cinestesia

A noite não chegava: entrava. Empurrava a porta com a delicadeza de quem já conhece o caminho e deixava no ar um cheiro leve de terra molhada, como se viesse de um lugar onde chove por dentro. Costumava estar na sala quando isso acontecia, sentado na poltrona que rangia sempre que alguém se aproximava. Foi numa dessas noites que percebi que a solidão tinha aprendido a mover objectos. Primeiro, apagou a lâmpada do tecto com um sopro que não vinha de qualquer lado. Depois, acendeu a pequena luz da estante, aquela que nunca usava. A chama tremia como se respirasse. E eu, sem saber porquê, senti que era um gesto de atenção. A partir daí, as coisas começaram a acontecer devagar, como se o tempo tivesse decidido caminhar descalço. A sombra da cortina alongava-se até tocar os meus pés, e quando demasiado se aproximava, recolhia-se de novo, tímida. O relógio parava sempre à mesma hora,  como se os ponteiros já exaustos, desistissem de de ter forma e existir. E havia um canto da sala onde...

O Visitante

Um traço. Depois outro.  Entre eles,                       o intervalo onde tudo começa.  No fundo da noite,  uma perfil             sem nome  resolve-se dentro de mim.  Não fala. Não pede.  Move apenas ar.  O círculo incompleto  acende-se no escuro como se aguardasse  um gesto inpensável. De sua margem ergue      um sopro - sem luz ou sombra,  a vibração                não se deixa   ver. O  silêncio faz o espaço,  a própria ausência  sem sinal.     Quando desperto nada levo comigo  além de um                  vestígio:  esse ponto imóvel, o quarto a respirar.

fenda

Para Carmen Martín Gaite a pretexto do poema Certeza, (As rachas. Poesía reunida, 2023 ) Cercaram-me com pedras (esqueceram-se  do vento).     Ergueram muros  como  quem  veste  por hábito                   o silêncio (e me pudesse                              habituar).  Queriam que  o corpo se  tornasse mobília ,     o desejo renunciasse -                   a ter direcção.  Fico.  Nem um centímetro  de rebeldia  se atreve a  romper o chão.                           Fico. Mas não lhe pertenço.       Aprendi que limites são mapas: uma fenda  mínima, quase  erro -  onde  a luz insiste  em  não  obedecer (n ã...