cicatrizes
As cicatrizes não são feridas. São a caligrafia irregular que o tempo deixou sobre a matéria. Há uma luz áspera em cada marca, como se a pele guardasse fragmentos de tempestades antigas. O mármore não sangra. O metal não sonha. As estátuas atravessam séculos sem uma única cicatriz. Somos feitos de quedas, incêndios, portas fechadas, amores residentes ou vagabundagens. Cada sinal gravado no corpo ou no invisível é uma testemunha silenciosa chamada a depor: - Sim, este ser humano passou por aqui. Sentiu o peso da noite. Conheceu o frio. Perdeu. Recomeçou. As cicatrizes não falam de dor. Falam de permanência. Paisagens que o tempo gravou no corpo faminto que a fome abraçou.