os objectos
os objectos erguem-se - parentes distantes com mãos de vidro - aproximam-se de nós com a delicadeza de quem aprendeu a nossa linguagem escutando atrás das paredes, atrás do sangue, e dão à luz o espanto directamente na concha da boca. competem entre si pela primazia da nossa solidão: a chávena reclama o primeiro frio, a cadeira o peso das nossas perguntas, o relógio o nervo impaciente de sermos ainda matéria. são criaturas modestas, nunca exigem a voracidade de estar vivo, contentam-se com a exactidão do pó, com a honra quase vegetal de permanecer. únicos, dizem, fora e dentro de nós, como se tivéssemos dois corpos e um fosse feito de chaves que não abrem coisa alguma. não interrogam a própria existência, não levantam assembleias de culpa, e no entanto vigiam-nos com a paciência de uma mãe que sabe o nome secreto do filho. ignoram que são, em si mesmos, a nossa mesma consciência: pequenos espelhos práticos onde a alma vem experimenta...