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A mostrar mensagens de abril 19, 2026

perfeição

perfeito então - há poemas que sabem quando param este ficou exactamente no ponto (quase nada e já é tudo)

o humor

O humor é a delicadeza do desespero. Boris Vian o humor é essa coisa pequena (que insiste) em acender luz no meio do des es pe ro como quem ri - quase nada - e tudo muda

devagar

amo o que chega devagar sem nome o tempo não rouba - despe o excesso solta em nós o que fica

Ressurreição

Para  Rumi         Já morri  tantas vezes         antes de  morrer:  no primeiro    abandono,  no primeiro beijo,   na palavra que roubei, no espelho que silenciei -     cada morte uma semente que ignorei.  Digam que alguém    me levou consigo      ao colher o fruto     que amadureceu. Ressurreição  não é  túmulo  aberto,                  sudário  dobrado.  É silêncio   depois do grito,  depois do nome, a luz: regresso  à  terra   sem pressa de ser árvore. (como  a cinza e a fénix,      o grão que apodrece       o pão que endurece).         Morro pela noite     como quem morre pela manhã.             Sou a criança que aprende ...

cinestesia

A noite não chegava: entrava. Empurrava a porta com a delicadeza de quem já conhece o caminho e deixava no ar um cheiro leve de terra molhada, como se viesse de um lugar onde chove por dentro. Costumava estar na sala quando isso acontecia, sentado na poltrona que rangia sempre que alguém se aproximava. Foi numa dessas noites que percebi que a solidão tinha aprendido a mover objectos. Primeiro, apagou a lâmpada do tecto com um sopro que não vinha de qualquer lado. Depois, acendeu a pequena luz da estante, aquela que nunca usava. A chama tremia como se respirasse. E eu, sem saber porquê, senti que era um gesto de atenção. A partir daí, as coisas começaram a acontecer devagar, como se o tempo tivesse decidido caminhar descalço. A sombra da cortina alongava-se até tocar os meus pés, e quando demasiado se aproximava, recolhia-se de novo, tímida. O relógio parava sempre à mesma hora,  como se os ponteiros já exaustos, desistissem de de ter forma e existir. E havia um canto da sala onde...

O Visitante

Um traço. Depois outro.  Entre eles,                       o intervalo onde tudo começa.  No fundo da noite,  uma perfil             sem nome  resolve-se dentro de mim.  Não fala. Não pede.  Move apenas ar.  O círculo incompleto  acende-se no escuro como se aguardasse  um gesto inpensável. De sua margem ergue      um sopro - sem luz ou sombra,  a vibração                não se deixa   ver. O  silêncio faz o espaço,  a própria ausência  sem sinal.     Quando desperto nada levo comigo  além de um                  vestígio:  esse ponto imóvel, o quarto a respirar.