A noite não chegava: entrava. Empurrava a porta com a delicadeza de quem já conhece o caminho e deixava no ar um cheiro leve de terra molhada, como se viesse de um lugar onde chove por dentro. Costumava estar na sala quando isso acontecia, sentado na poltrona que rangia sempre que alguém se aproximava. Foi numa dessas noites que percebi que a solidão tinha aprendido a mover objectos. Primeiro, apagou a lâmpada do tecto com um sopro que não vinha de qualquer lado. Depois, acendeu a pequena luz da estante, aquela que nunca usava. A chama tremia como se respirasse. E eu, sem saber porquê, senti que era um gesto de atenção. A partir daí, as coisas começaram a acontecer devagar, como se o tempo tivesse decidido caminhar descalço. A sombra da cortina alongava-se até tocar os meus pés, e quando demasiado se aproximava, recolhia-se de novo, tímida. O relógio parava sempre à mesma hora, como se os ponteiros já exaustos, desistissem de de ter forma e existir. E havia um canto da sala onde...