vertigem
Para Walt Whitman Quando o astrónomo dissertava, o mundo tomou a forma de um cálculo. As estrelas, livres outrora, em respirações longínquas, foram empilhadas em prateleiras de supermercados, domesticadas por números como degraus enfileirados em escadas. Sentava-me entre outros corpos inclinados na direcção da voz que dissecava o pulsar do eco das estrelas. O quadro branco em que escrevia, tornara-se um campo de batalha, onde a noite era traduzida em sinais e o mistério perdia a qualidade intraduzível. O aplauso final surgiu como uma confirmação de que se tratara a matéria do modo incorrigivelmente certo, de que o cosmos cabia inteiro na linguagem que soprava um alfabeto sem vertigem e qualquer súbito espanto. Mas dentro de mim algo começou a falhar como um instrumento desafinado perante uma pauta demasiado exacta. Um cansaço sem causa tomou conta dos meus ossos, uma espécie de febre silenciosa, como se o excesso de clareza me tivesse roubado o ar. Não o ar que pesava, mas...