o navio de vidro
Para Claudia Emerson A memória é um gargalo estreito, um caminho de terra que termina onde o sal começa. Quando era pequena , o mundo tinha a segurança das coisas sólidas, até ao dia em que o carro parou diante do impensável. Conduzimos apenas uma vez até ao oceano , uma incursão única num território sem mapa. Imóvel no banco de trás, a criança tinha medo desse tipo de água , não a que se deixa medir por garrafas mas dessa massa azul - músculo que se move s em intenção, sem perdão, ocupando o vácuo. O mar não era uma paisagem. Era uma anatomia que não conseguia nomear. E havia o peso desse horizonte , uma linha cortante que não prometia nada além de si mesma. Um abismo horizontal que tentava fechar dentro do olhar como quem tenta f orçar um navio de velas abertas a entrar dentro de uma garrafa. O med...