os deuses
A noite ergue-se como uma lona velha esticada sobre um mundo cansado. As estrelas torcem-se no alto, espirais de luz numa imensa tenda que alguém desenhou para vigiar os que sonham. Porque ficam os deuses lá fora? Porque não atravessam a cortina como quem aceita o risco de ser apenas mais um na plateia? Será a pobreza da eternidade? Ou o truque de quem prefere observar sem pagar o preço da surpresa? Ou talvez temam que lhes pintemos o rosto, lhes demos sapatos bicudos e gargalhadas demasiado humanas. Mas, se isso acontecesse, não era assim tão estranho - os palhaços governaram desde sempre o circo. Então que desçam, que entrem sem pagar nem permissão. Aqui ninguém lhes pedirá contas. Só lhes pedimos uma coisa: não fiquem lá em cima a espreitar. Há números delicados em cena e os equilibristas caem ao saber que são observados das estrelas.