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A mostrar mensagens de abril 12, 2026

a fenda do poente

Para Carmen Martín Gaite a pretexto do poema Certeza, (As rachas. Poesía reunida, 2023 ) Cercaram-me com pedras (esqueceram-se  do vento).     Ergueram muros  como  quem  veste  por hábito                   o silêncio (e me pudesse                              habituar).  Queriam que  o corpo se  tornasse mobília ,     o desejo renunciasse -                   a ter direcção.  Fico.  Nem um centímetro  de rebeldia  se atreve a  romper o chão.                           Fico. Mas não lhe pertenço.       Aprendi que limites são mapas: uma fenda  mínima, quase  erro -  onde  a luz insiste  em  não  obedecer (n ã...

o homem real

Para Paul Auster O espaço resume-se a isto: uma mesa, uma lâmpada, a máquina de escrever. Lá fora, o mundo é um ruído de estranhos, uma sucessão de coincidências sem nome.  Mas ao sentar-me, a geografia muda. Não há mapas para o que as teclas procuram. Cada batida é um passo num labirinto onde a saída não importa, mas a precisão do rasto. Sou o arquitecto de uma cidade de tinta, erguida no silêncio de um quarto fechado. Um homem que escreve para saber onde está, inventando o céu para não morrer sufocado pela métrica dos dias.  A liberdade não é um horizonte aberto. É o arco que vai do pensamento ao punho, a recusa de ser  uma sombra no asfalto: um homem que se escreve até se tornar real.

5 ai cus

1 agora: o tempo falha por excesso de si 2 presente nega-se a durar  e permanece 3 nenhum antes nenhum depois logo, tudo 4 instante: o que é inteiro fora do tempo 5 eterno: o saldo do tempo  que se contradiz

a medida exacta

To do the useful thing, to say the courageous thing, to contemplate the beautiful thing: that is enough for one man’s life. T. S. Eliot, The Use of Poetry and the Use of Criticism, 1933. O presente e o passado talvez residam somente no calo da mão que cultiva. Não no gesto heróico das estátuas que descansam na praça, mas antes no fazer a coisa útil : o conserto do muro, a distribuição do pão, a precisão do artesão que ignora o aplauso das galerias, como se a utilidade fosse uma forma de oração sem palavras. Depois, há o peso do ar nos pulmões,  necessidade de dizer a coisa corajosa . Não o grito do demagogo ou a fúria do mercado, mas a palavra que corta a névoa, dita no momento em que o silêncio seria mais confortável. Uma verdade seca, como um osso ao sol, que não se dobra à conveniência das sombras. E, no fim do corredor pleno de ecos: c ontemplar a coisa bela. Não a beleza que distrai, mas a que detém o brilho da luz sobre o vidro quebrado, o padrão oculto no movimento das á...

o fundo da chávena

acordei tarde ou cedo demais  dependendo  do lado esculpido                    da garrafa a cidade já estava  a tentar vender cedo o dia a cidade de dentes brancos opiniões recicladas em catálogos ambulantes de coisas que tentam ser compradas homens de gravata invisível  com cara de enterro mal pago empurram-se no metro  como se o inferno pagasse  o salário  uma mulher grita patética  ao telemóvel                         ninguém olha há regras a cumprir não se olha de frente para    o ridículo  dos outros a menos que dê lucro há quem acorde para correr  atrás do  sucesso e tropece na mesma pedra - o desespero de parecer interessante: publica frases que não entende fotografa comida que não saboreia vive vidas que não lhes pertencem tudo para ganhar  u m like esse pequeno  orgasmo  ...

cúmplices

A cobardia não grita em alvoroço, não fecha as portas com estrondo, não rasga o ar com botas. Senta-se. Espera. A cobardia veste roupa comum, tem mãos limpas, olhos baixos, e um silêncio muito bem educado. Dizem: Não é o momento . Dizem: Não fui eu . Dizem: Nada posso fazer . E assim se constrói um muro sem tijolos visíveis. Enquanto isso, alguém cai. E quem viu, ajusta o casaco, consulta o relógio, engole a palavra que poderia existir. A cobardia não precisa de armas. Basta-lhe o intervalo entre o que se sabe e o que se diz. Basta-lhe o pequeno acordo com o conforto, essa cadeira demasiado mole onde a consciência adormece. Mas há um detalhe incómodo: a cobardia nunca age sozinha. Multiplica-se em cada ombro encolhido, em cada riso deslocado, em cada porta que não se abre. E quando por fim perguntam: Quem deixou que isso acontecesse? a cobardia, discreta, abandona a sala.