a fenda do poente

Para Carmen Martín Gaite
a pretexto do poema Certeza,
(As rachas. Poesía reunida, 2023)




Cercaram-me com pedras
(esqueceram-se 
do vento).
    Ergueram muros como 
quem veste 
por hábito 
                 o silêncio
(e me pudesse 
                            habituar).

 Queriam que o corpo se 
tornasse mobília
   o desejo renunciasse -  
                a ter direcção. 

Fico. Nem um centímetro 
de rebeldia se atreve a 
romper o chão. 
                        
Fico. Mas não lhe pertenço.
      Aprendi que limites

são mapas: uma fenda 
mínima, quase erro - onde 
a luz insiste em não 
obedecer (não é fuga,
ainda,
 esse rumor de horizonte 

que aguça 
o olhar). Mas é por ali
onde o dia começa 
   a morrer em ouro, 
          que a certeza
em mim ecoa: 
 sé por donde se vá.

Quieta, ainda - 
sei que me movo inteira. 

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