Mensagens

A mostrar mensagens de junho 7, 2026

perplexidade

(a suspensão entre  o saber & o não saber não é simples ignorância  é o momento  em que a realidade  se                torna opaca - o olhar que  confronta  o inesperado a contradição  ou o excesso  de sentido fazendo vacilar  certezas nesse espaço  a razão hesita e a        linguagem tropeça o sujeito experimenta  a forma       de um estranheza essencial: algo   que não se encaixa     na lógica corrente e ainda               não há nome para o que           escapa ao rótulo  (e de repente o peixe descobre  a água   o mapa desaprende  o território  o zero dança redondo      como um deus e o pássaro               hesita no ar    não porque o vento mudasse mas porque o voo pergunta: voar para qu...

simplicidade

   quem escreve para  i-d-i-o-t-a-s traça letras simples   pedras no chão   sem curvas         & abismos      o mundo inteiro   tropeça nelas   & aplaude

as vezes que morreste

Não houve gritos. Nem testemunhas. Apenas a chávena partida sobre a mesa, o nome indizível dito por engano, a chave que deixou de abrir a porta. Morreste na língua que aprendeste a calar, na confiança abandonada à chuva tropical, em quartos onde dobraste a roupa do futuro como quem arruma o corpo rasgado em uso. Morreste de pequenas amputações: o espanto, a imprudência, a fé de que o amor reconhece  cegamente  o caminho para casa. E, no entanto, todas as manhãs alguém empurrava o coração para diante como se acendesse um fogão antigo, com gestos repensados de heroísmo. Viveste. Com o rosto remendado por perdas, bebendo água, pagando contas, regando plantas quase secas, aprendendo a rir com tristeza. Quantas vezes morreste? Talvez tantas em vida que deixaste de contar: uma arte obscura de regressos, o ofício de recolher os próprios ossos depois de cada incêndio invisível, e erguer-se outra vez, não intacto, mas habitável.

A Gravidade

a mão hesitou o copo caiu                   na mesma o chão não perguntou         se foi acidente     antes de se partir

estupidez I

Stupidity is the same as evil if you judge by the results. Margaret Atwood A estupidez disse: - Não foi por mal . Mas a porta continua selada. E o frio não distingue intenções.

estupidez II

Para Margaret Atwood  A estupidez tem mãos limpas. Chega de sapatos engraxados. Pede licença, sorri para as crianças, traz uma travessa para a mesa do domingo. Não anuncia incêndios. Diz: não sabia, não pensei, ninguém me explicou a dimensão, o sentido, a consequência. Enquanto isso, as plantas secam nos vasos, os peixes aparecem de barriga branca junto às margens, alguém aprende a baixar a voz para caber dentro do medo. A maldade, imaginávamos, teria dentes visíveis e agudos, o prazer inequívoco da ferida. Mas não. Quase sempre usa óculos gastos sobre papéis, carimba formulários, repete frases como quem dobra lençóis. Não foi por ódio, dizem. Foi distracção. Preguiça da dúvida. Fome de obedecer. O conforto macio de deixar que o pensamento seja da autoria de outros. No fim, os resultados alinham-se na luz fria da cozinha: os pratos partidos, as portas vazias, os nomes apagados silenciosamente da memória dos vivos. Os senhores do mundo, esses contadores de estórias sem piedade...

inadaptados

sempre                   gostei dos que falham  o horário do        combóio     porque param pra ver  um insecto   morto dos que         não acertam papéis          no lixo      ou esquecem  o prazo  do imposto dos que               atrasam o jantar ao desmontar a torneira            que pinga dos que                dormem com a luz acesa porque o escuro tem a forma      de um mundo              arrumado

a prisão

não havia grades       ninguém falou  em prisão   deram-te ruas   nomes                 horas   nunca tentaste sair   nunca te                   disseram   que estavas                        dentro