o escritor
O propósito da literatura é transformar o sangue em tinta. T.S. Eliot Os hospitais fecham à mesma hora, os sinos repetem a ferrugem do ar, um homem dobra o jornal como quem fecha uma urna portátil. Há um odor de ferro sob as unhas da tarde. Os eléctricos continuam a passar por ruas onde ninguém espera profetas, apenas o padeiro, o funcionário, a mulher que recolhe da corda camisas mais brancas que a memória. Disseram que a palavra redime. Mas a palavra conhece o sabor das moedas, o pó das bibliotecas, o silêncio administrativo dos arquivos. Que espécie de alquimia troca a pulsação pela caligrafia? O sangue nunca consente. Circula ainda, teimoso animal subterrâneo...