inventam-te
Ninguém chega com os olhos vazios. Trazem já um retrato dobrado no bolso, uma moldura à procura de um rosto. Não te veem. Medem-te com réguas herdadas, vestem-te com palavras antigas, confundem a tua respiração com o eco das próprias vozes. És, para cada um, uma imitação imperfeita. Quem te chama luz talvez precise apenas de um lugar onde descansar a sombra. E tu, que julgavas oferecer um espelho, descobres que és um vidro baço onde cada olhar esboça o molde da própria face. Há quem te invente como tudo, há quem te invente como nada, há quem faça da tua ausência uma culpa, e da tua presença uma ameaça. Nenhuma dessas figuras aprendeu o teu nome.