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A mostrar mensagens de julho 12, 2026

o operário

Detesto a ferrugem do que já foi dito. As coisas  pedem obediência: a pedra exige peso, o relógio exige horas, o mapa insiste onde o horizonte acaba e a tinta se esgota. Mas há um lugar que nenhum alicerce alcança. Ali, o pensamento aprende o ofício dos vulcões. Não aceita a paisagem. Acende outra & outra. Com as mãos vazias fabrica oceanos para peixes sem nome, ergue árvores, frutos que amadurecem antes da semente, e ergue vastas cidades onde janelas sem luz olham para dentro dos sonhos. Não sabem que toda a ponte foi primeiro desobediência, toda a estrela desenhada na infância  foi um ensaio para incendiar o universo. A realidade é a primeira versão que não acaba de escrever-se. E eu, operário do impossível, entro todos os dias na fábrica silenciosa da imaginação, onde o que existe nunca ordena e o desejo aprende vagarosamente a existir.  

Naufrágio

todo o livro                        é um barco        que regressa sem o mar        entre a ideia e a página                         naufraga o inefável

soneto absurdo

Somos todos AI - Alguém diz por aí, mas calma lá, menina, com o Inglês, que à língua mãe isso não fica bem, digo, inglesismos não, - fora d' aqui. Imperialismo verbal - Ai de mim!! era mesmo o que nos faltava ver, certa IA, sem sequer o aperceber, vai reclamando o aí, como assim. Abaixo qualquer maneio que divide, abaixo o preconceito que apequena, abaixo tudo que em baixo se mede, abaixo o abaixo que a tudo condena, que a língua, afinal, ninguém impede de ser ao mesmo tempo tua e minha.