o operário
Detesto a ferrugem do que já foi dito.
As coisas pedem obediência:
a pedra exige peso,
o relógio exige horas,
o mapa insiste
onde o horizonte acaba
e a tinta se esgota.
Mas há um lugar que
nenhum alicerce alcança.
Ali,
o pensamento aprende
o ofício dos vulcões.
Não aceita a paisagem.
Acende outra & outra.
Com as mãos vazias
fabrica oceanos
para peixes sem nome,
ergue árvores,
frutos que amadurecem
antes da semente,
e ergue vastas cidades
onde janelas sem luz
olham para dentro dos sonhos.
Não sabem
que toda a ponte
foi primeiro desobediência,
toda a estrela desenhada
na infância foi um ensaio
para incendiar o universo.
A realidade
é a primeira versão que
não acaba de escrever-se.
E eu,
operário do impossível,
entro todos os dias na
fábrica silenciosa da imaginação,
onde o que existe
nunca ordena
e o desejo
aprende vagarosamente
a existir.