eclipse
Para Edmond Jabès O eclipse não dramatiza a sombra: observa-a a trabalhar. O escuro não vem como punição, mas como forma provisória de leitura. A mão que cobre o rosto inaugura um saber antigo: ver menos para ver melhor. O divino como um livro ilegível de tanto ter sido tocado pelo fogo. O eclipse é isso: um acordo silencioso para que o instante por um segundo exacto saiba que é dono de si. Escrever torna-se navegação às cegas, registo do abalo, e não da rota. Entre partida e regresso, o poema aceita a sua condição de bordo instável. Nada se fixa, tudo se anota. Todo o livro é um livro de bordo . Toda a leitura, uma travessia. E quando se fecha o rosto com a mão, não é sombra: é o eclipse a ensaiar, em nós, a sua lenta, perfeita caligrafia.