Anjo
“Todo o Anjo é terrível”, disse, e eu acrescento: tão terrível que aprisiona ao Lugar. António Barahona Não ao lugar geográfico - não à rua, nem à casa, nem ao nome da cidade - mas a esse ponto fixo onde a alma fica suspensa como um prego de luz. O anjo não empurra: detém. Não fere: imobiliza com claridade excessiva. Terrível porque mostra a forma exacta do nosso medo, o contorno nítido do desejo, a pergunta sem portas. Onde o anjo passa, o tempo perde mobilidade como quem foi visto por dentro. O Lugar é esse: o sítio onde já não somos metáfora, onde a linguagem deixa de proteger, onde o silêncio tem peso específico. Por isso trememos. Não porque o anjo venha do alto, mas porque nos fixa - como um espelho que decide lembrar-se de nós. E assim permanecemos: O anjo não fecha a porta. Aprende connosco a falha. Aprisiona ao Lugar como quem ensina a respirar dentro da pedra, como quem diz: fica - não para obedecer, mas para escutar o que ainda falha o no...