a velocidade absurda
A casa é uma fábrica de ecos. As paredes aprendem depressa os nossos tiques: a maneira como desistimos da manhã, o copo esquecido junto ao lava-loiça, a cadeira onde o corpo abandona lentamente a própria fome. Dentro de casa os pensamentos fermentam mal. Ganham bolor nas extremidades, falam com a voz cansada dos candeeiros, vestem o robe húmido do fim de tarde. Um pensamento doméstico raramente conhece o vento. Nunca atravessou uma avenida com chuva na cara, nunca perdeu o autocarro, nunca ouviu dois desconhecidos rir no fundo de um café. A casa protege e inventa labirintos pequenos. Há ideias que só existem porque o tecto é baixo e o silêncio engorda os móveis durante a noite. Por isso desconfio sempre das conclusões repentinas entre o quarto e o corredor. Levo-as à rua. Se sobreviverem ao frio, aos cães, às montras, à velocidade absurda das árvores num comboio, talvez sejam verdade.