a velocidade absurda
A casa
é uma fábrica de ecos.
As paredes aprendem depressa
os nossos tiques:
a maneira como desistimos da manhã,
o copo esquecido junto ao lava-loiça,
a cadeira onde o corpo
abandona lentamente a própria fome.
Dentro de casa
os pensamentos fermentam mal.
Ganham bolor nas extremidades,
falam com a voz cansada dos candeeiros,
vestem o robe húmido do fim de tarde.
Um pensamento doméstico
raramente conhece o vento.
Nunca atravessou uma avenida
com chuva na cara,
nunca perdeu o autocarro,
nunca ouviu dois desconhecidos
rir no fundo de um café.
A casa protege
e inventa labirintos pequenos.
Há ideias que só existem
porque o tecto é baixo
e o silêncio engorda
os móveis durante a noite.
Por isso
desconfio sempre
das conclusões repentinas
entre o quarto e o corredor.
Levo-as à rua.
Se sobreviverem ao frio,
aos cães,
às montras,
à velocidade absurda das árvores num comboio,
talvez sejam verdade.
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