Grau 103⁰
Para Sylvia Plath A febre rasga-me em dois. Não há metáfora do corte Cada respiração um estilhaço, cada gota de suor uma confissão Sinto a carne soltar-se, sem suavidade, e com pele arrancada a seco: a febre quer-me limpa, quer-me branca, quer-me vazia, quer-me sem nome O espelho rejeita a face, mostra-me a espada - uma lâmina piedosa Corta o supérfluo, separa a luz - o exorcismo branco Há um ponto em que o calor se torna oração. Ali, no centro do peito, algo se abre - a ferida aprende a cantar. Ponto em que o calor se torna redenção Ali, no centro do peito, arde o que resta da culpa, arde o que resta de mim Quando a febre finalmente cede, não volto a ser carne. Sou quase santa ou quase nada - um segredo sonoro regressa do próprio corpo. Cinza suspensa, o silêncio a arder devagar - o nome que se escreve sozinho