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A mostrar mensagens de junho 28, 2026

inventam-te

         Ninguém chega com os olhos vazios.    Trazem já um retrato dobrado no bolso, uma moldura à procura de um rosto. Não te veem. Medem-te com réguas herdadas, vestem-te com palavras antigas, confundem a tua respiração com o eco das próprias vozes. És, para cada um, uma imitação imperfeita. Quem te chama luz talvez precise apenas de um lugar onde descansar                      a sombra. E tu, que julgavas oferecer um espelho,    descobres que és um vidro baço onde cada olhar esboça o molde da própria face. Há quem te invente  como tudo,        há quem te invente como nada,          há quem faça da tua ausência uma culpa, e da tua presença           uma ameaça. Nenhuma dessas figuras       aprendeu o teu nome.        

os 3 pês

pensamento - coisa não há distância entre  nomear                  e ser o olho fixa       a mármore quebra in the mind’s eye  existe o que                        ainda  não tocaste pedra             palavra                            peso   tudo numa só             queda  

paisagens

Hoje nada tenho a dizer, e por isso falo. As palavras, quando perdem o destino, aprendem a caminhar descalças.     Sentam-se ao lado das pedras, escutam o pó, contam os segundos como quem descasca uma romã e encontra sementes de silêncio.  Hoje nada tenho a dizer,                e por isso a voz  deixa de ser ferramenta, torna-se paisagem. Falo para que o vazio não obscureça.        Falo porque o eco    precisa de um corpo onde cair.      A frase falha: quando abre     cada janela para um abrigo     de gente inabitável. Talvez seja isso  a linguagem - um incêndio lento onde a luz devora nomes & paredes. Hoje não nada tenho a dizer. Mas a boca persiste -  cada rio  desconhece  o mar, mas não desiste de inventar      a revolta no seu caminhar.