paisagens

Hoje nada tenho a dizer,
e por isso falo.

As palavras,

quando perdem o destino,

aprendem a caminhar descalças.

    Sentam-se ao lado das pedras,

escutam o pó,

contam os segundos

como quem descasca uma romã

e encontra sementes de silêncio.


 Hoje nada tenho a dizer,

               e por isso a voz

 deixa de ser ferramenta,

torna-se paisagem.


Falo para que o vazio

não obscureça.


       Falo porque o eco

   precisa de um corpo

onde cair.


     A frase falha: quando abre

    cada janela para um abrigo

    de gente inabitável.


Talvez seja isso a linguagem -

um incêndio lento

onde a luz devora

nomes & paredes.


Hoje não nada tenho a dizer.

Mas a boca persiste -

 cada rio desconhece o mar,

mas não desiste de inventar 

    a revolta no seu caminhar.



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