o escritor
O propósito da literatura é transformar o sangue em tinta.
T.S. Eliot
Os hospitais fecham à mesma hora,
os sinos repetem a
ferrugem do ar,
um homem dobra o jornal
como quem fecha uma urna portátil.
Há um odor de ferro
sob as unhas da tarde.
Os eléctricos
continuam a passar
por ruas onde ninguém espera
profetas,
apenas o padeiro,
o funcionário,
a mulher
que recolhe da corda
camisas mais brancas que a memória.
Disseram que a palavra redime.
Mas a palavra conhece o sabor
das moedas,
o pó das bibliotecas,
o silêncio
administrativo dos arquivos.
Que espécie de alquimia
troca a pulsação
pela
caligrafia?
O sangue nunca consente.
Circula ainda, teimoso animal
subterrâneo,
enquanto a tinta aprende
a disciplina das
margens.
Entre ambos,
o escritor.
Nem sacerdote,
nem médico,
apenas o
tradutor
do idioma que o corpo esquece
quando a cidade
inflama
com luzes de néon a noite.
E Londres,
ou Lisboa, ou qualquer
lugar
onde a chuva dissolve os rostos
contra o vidro dos
cafés,
é uma outra nota de rodapé
num manuscrito sem
autor.
Escuto vozes antigas
no fundo do motor dos autocarros.
Porque és pó.
Porque escreves.
Porque o nome das coisas
não sobrevive ao seu uso.
As frases acumulam-se
como copos vazios
depois de uma
conferência
sobre a imortalidade.
Ninguém responde.
Apenas uma torneira
goteja sílabas
num quarto
alugado,
e o relógio,
o funcionário impecável,
carimba
mais uma hora
sobre a pele.
O propósito da literatura
não é vencer a morte.
É conceder-lhe
uma caligrafia suficientemente lenta
para
que,
durante um instante,
o sangue imagine
que nunca deixou
de correr.