1. a multidão acolhe o céu aberto contra o vidro o tempo elástico encolhe o silêncio & empurra a pressa do mundo o rio não afaga as suas margens 2. a vida é o metro círculos lentos estações intensas viagens sonoras em pressa o corpo se apaga no chão quebra o invisível & assim cala a meio a vida 3. hora de ponta o sangue nos ossos encovados os olhos nos ombros a língua pastosa a recitar horas o tempo a mastigar sobras olhare...
Para A. S. 1. O AMIGO partiste em silêncio como quem respeita o peso das palavras não houve adeus somente a ausência tomando de um gole seco inteira a casa colecionavas quimeras não como quem foge, mas como quem insiste guardavas sonhos em cadernos gastos papéis soltos menores do que silêncio caixas em madeira cheirando a cinzas falavas de coisas desconhecidas para o mundo: um peixe que voava reflectindo a lua uma estrada que levava até a infância um amor que não cobrava passagem enquanto todos reclamavam provas - trabalhavas o malabarismo do encanto: curvas sem tempo pequenos gestos agora que partiste - repouso inquietas as quimeras presas em meus bolsos não sei o que fazer com elas - algumas ainda serpenteiam pelas veias out...
m.u.n.d.o.s. (paralelos // = a salvação) se_ f.a.r.t.o.s_ de (um) P U F! (saltamos) 1⁰ 2⁰ 3⁰ (#dos olhos // #do medo // #do tempo que foge) p/ o u t r o & o.ut.r.o &&& (.. ) ∞→ :: ao n/gosto :: escolham → [porta] [realidade] [criação] o único senão será o céu? (mas esse ri-se &diz: - Nunca fui limite. ) F Ô L E G O ...
Para Nika Turbina não sou eu, dizes - quem escreve, como se a mão fosse um rumor do corpo, o abismo apressado não sou eu, dizes - quem escuta, o ouvido no pulso, o verso sem nome no caderno escuro não sou eu, dizes - quem faz tremer os sonhos onde o chão líquido aprende a cair acordas - a noite intacta, pesada, um animal deitado sobre o peito Gritar? O grito esqueceu- se de ti dizes - não há palavras e logo depois há - mas quem encontra letras num quarto submerso? e então es...
ela não chega, condensa-se nenhum passo, nenhuma heráldica, apenas a lenta insistência da maré contra o crânio a palidez acumula-se à beira do pensamento, onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos sente-a primeiro a subtracção: calor rarefeito, cor drenada, nomes escorregando como peixes da rede para a boca depois começa a aritmética prateada: cresce, diminui, desaparece, regressa ela guarda a sua biblioteca na medula cada mito uma vértebra, cada amante um fóssil de devoção impresso na longa paciência do seu corpo os homens chamaram-lhe misericórdia os homens chamaram-lhe perecimento construíram altares a partir dos seus erros, nomearam esses ecos uma epifania mas ela não é dádiva nem fim ela é a gramática da recorrência, a si...
sou um pigmeu país rectângulo, desenhado a régua cega num teste de geografia errada a culpa? do miúdo, claro. ou da professora - quem sabe? que me ensinou a ser nação com letra minúscula sílaba torta, alfabeto impróprio, versão pirateada do latim, subtitulada em ressentimento sou um país em nota de rodapé vulgar nos gestos, épico nos jantares de tascas herdei memórias como quem herda louça lascada com orgulho! diz o povo entre duas invejas e três novelas sou mapa de feriados, onde os miúdos pintam com lápis de cera e depois atiram o desenho pela janela quando chega o teste de matemática tenho hinos que ninguém sabe de cor, e estátuas que ninguém visita sou gloriosamente pequeno, especialista em saudade e medalha de ouro no campeonato europeu, profissional de desculpas históricas mas ainda assim, com um peito inchado e mesmo com ar reciclado, digo: Aqui ninguém manda! senão Bruxelas, o FMI & os merc...
Para P. J. C. M. em memória de tudo o que muda. a luz regressou depois sem peso quando os olhos rasgaram por mãos que não conheci era um mundo diverso dos nomes que usava rosto cadeira rua árvore sombras em água & o fundo não se movia nada mais era coisa nada mais era ideia só vibração som antes do som algo que respondia não com palavras mas com o corpo matéria luz carne tudo isso & ainda o espaço que expande negro ...
Para Walt Whitman Quando o astrónomo dissertava, o mundo tomou a forma de um cálculo. As estrelas, livres outrora, em respirações longínquas, foram empilhadas em prateleiras de supermercados, domesticadas por números como degraus enfileirados em escadas. Sentava-me entre outros corpos inclinados na direcção da voz que dissecava o pulsar do eco das estrelas. O quadro branco em que escrevia, tornara-se um campo de batalha, onde a noite era traduzida em sinais e o mistério perdia a qualidade intraduzível. O aplauso final surgiu como uma confirmação de que se tratara a matéria do modo incorrigivelmente certo, de que o cosmos cabia inteiro na linguagem que soprava um alfabeto sem vertigem e qualquer súbito espanto. Mas dentro de mim algo começou a falhar como um instrumento desafinado perante uma pauta demasiado exacta. Um cansaço sem causa tomou conta dos meus ossos, uma espécie de febre silenciosa, como se o excesso de clareza me tivesse roubado o ar. Não o ar que pesava, mas...
Dizem-nos: das trevas fez-se luz. E houve uma manhã - talvez. Mas a manhã não nos pertenceu. Falaram-nos de uma luz inteira, como se a inteireza fosse possível num século de espelhos rachados. Assim pensámos. Assim nos ensinaram a pensar entre anúncios luminosos e ruínas de ossos discretos. Mas quando a luz nasceu (se nasceu: fragmentou-se): não em constelações sublimes, mas em lâmpadas de tecto de corredores administrativos. Basta olhar para o céu: as trevas continuam. Não como ausência, mas como afirmação do método. Medem a dança das luzes com a paciência mineral das eras. (outrora chamámos a isso destino). Outrora como agora, marionetas no carrossel do jogo. A música é alegre ( convém que seja): quem dança não pergunta qual personagem roda a manivela. Agora chamamos equilíbrio instável ao copo ...