estupidez II

Para Margaret Atwood 



A estupidez tem mãos limpas. Chega de sapatos engraxados. Pede licença, sorri para as crianças, traz uma travessa para a mesa do domingo. Não anuncia incêndios. Diz: não sabia, não pensei, ninguém me explicou a dimensão, o sentido, a consequência.

Enquanto isso, as plantas secam nos vasos, os peixes aparecem de barriga branca junto às margens, alguém aprende a baixar a voz para caber dentro do medo.

A maldade, imaginávamos, teria dentes visíveis e agudos, o prazer inequívoco da ferida. Mas não. Quase sempre usa óculos gastos sobre papéis, carimba formulários, repete frases como quem dobra lençóis.

Não foi por ódio, dizem. Foi distracção. Preguiça da dúvida. Fome de obedecer. O conforto macio de deixar que o pensamento seja da autoria de outros.

No fim, os resultados alinham-se na luz fria da cozinha: os pratos partidos, as portas vazias, os nomes apagados silenciosamente da memória dos vivos.

Os senhores do mundo, esses contadores de estórias sem piedade, negam medir intenções. Contabilizam corpos. Ignoram silêncios. Apagam todo o vestígio. A estupidez protesta, ofendida.

Mas o rio continua a correr, transportando a carga dentro. A pedra rolante conhece perfeitamente a gramática da queda.

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