as vezes que morreste

Não houve gritos. Nem testemunhas.

Apenas a chávena partida sobre a mesa,
o nome indizível dito por engano,
a chave que deixou de abrir a porta.

Morreste na língua que aprendeste a calar,
na confiança abandonada à chuva tropical,
em quartos onde dobraste a roupa do futuro
como quem arruma o corpo rasgado em uso.

Morreste de pequenas amputações:

o espanto,
a imprudência,

a fé de que o amor reconhece 

cegamente 
o caminho para casa.

E, no entanto,

todas as manhãs
alguém empurrava o coração para diante
como se acendesse um fogão antigo,
com gestos repensados de heroísmo.

Viveste.

Com o rosto remendado por perdas,
bebendo água, pagando contas,
regando plantas quase secas,
aprendendo a rir com tristeza.

Quantas vezes morreste?

Talvez tantas em vida
que deixaste de contar:

uma arte obscura de regressos,
o ofício de recolher os próprios ossos
depois de cada incêndio invisível,

e erguer-se outra vez,
não intacto,
mas habitável.

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