cinestesia

A noite não chegava: entrava. Empurrava a porta com a delicadeza de quem já conhece o caminho e deixava no ar um cheiro leve de terra molhada, como se viesse de um lugar onde chove por dentro. Costumava estar na sala quando isso acontecia, sentado na poltrona que rangia sempre que alguém se aproximava.

Foi numa dessas noites que percebi que a solidão tinha aprendido a mover objectos. Primeiro, apagou a lâmpada do tecto com um sopro que não vinha de qualquer lado. Depois, acendeu a pequena luz da estante, aquela que nunca usava. A chama tremia como se respirasse. E eu, sem saber porquê, senti que era um gesto de atenção.

A partir daí, as coisas começaram a acontecer devagar, como se o tempo tivesse decidido caminhar descalço. A sombra da cortina alongava-se até tocar os meus pés, e quando demasiado se aproximava, recolhia-se de novo, tímida. O relógio parava sempre à mesma hora,  como se os ponteiros já exaustos, desistissem de de ter forma e existir. E havia um canto da sala onde o ar parecia mais denso e frio, como se alguém estivesse ali sentado, invisível, a observar-me com paciência.

Uma noite, encontrei no chão um círculo de pó dourado. Não era pó de nada que eu conhecesse. Brilhava como se tivesse memória própria. Quando passei o dedo por ele, senti um calor leve, quase um pulso. Não me assustei. A casa já me habituara a aceitar o inexplicável como quem aceita a mudança do vento.

Com o tempo, comecei a perceber que a solidão não era ausência - mas in facto uma presença. Não vinha para me afastar do mundo, mas para me devolver o que deixava cair sem notar: um pensamento esquecido, um gesto que não fiz, uma palavra que não disse. A solidão tudo recolhia, arrumava no escuro, e devolvia-me aos poucos, como quem devolve cartas antigas encontradas num anónimo baú de um sótão.

Uma vez, acordei no sofá e vi que alguém - ou algo - tinha pousado sobre mim uma manta que não lembrava de ter tirado do armário. A sala estava silenciosa, mas havia no ar um rumor de asas, como se um pássaro tivesse acabado de levantar voo.

Desde então, deixo sempre a porta entreaberta. Não por esperar visitas, mas porque aprendi que a solidão, quando chega com essa delicadeza de magia, não é para ser trancada. É para ser acolhida como se acolhe um animal raro: com respeito, com espanto, com a certeza de que há presenças que só existem quando lhes damos espaço.

E todas as noites, antes de adormecer, olho para a estante. A pequena lâmpada acende-se sozinha, num gesto que já conheço. Não é um sinal, nem milagre. É a forma que a solidão encontrou de me dizer que está ali e que, de algum modo, cuida de mim.

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