palimpsesto
Para T. S. Eliot
Só aqueles que se arriscam a ir longe demais
- dizes - podem descobrir até onde se pode ir,
como quem deixa cair uma moeda num poço
e escuta o eco esperando que lhe devolva
em detalhe e com rigor a cartografia anotada.
A cidade continua a respirar em fragmentos:
luzes intermitentes, vozes sem acabar frases,
E nós,
com mãos ocupadas em pequenos medos úteis,
medimos distâncias com réguas quebradas,
traçamos limites no pó de coisas apagadas.
Ir longe demais
não é um gesto heróico.
Antes é
um desvio imperceptível,
pegada que não pede abrigo ao chão.
Há sempre um ponto onde o nome das coisas falha:
o mar já não é infinito, o corpo já não é casa,
o tempo esquece a sua própria cronologia.
E é aí
nessa margem onde o sentido se dissolve
como tinta em água turva, que
Talvez nada se descubra.
Talvez o longe seja um espelho atrasado
onde nos revemos lentos na miragem.
Mas quem recua cedo demais
fica preso à primeira versão do mundo,
à superfície intacta e pura.
onde tudo e nada acontece.
Ir além é consentir na erosão:
deixar que o excesso desfaça o traço,
e o desconhecido respire por cima
de um palimpsesto que julgámos ser.
E no fim,
se houver um fim,
não haverá medida,
nem resposta -
apenas a estranha lucidez
de ter ido longe até onde
o lugar não cabia em nós.
A cidade continua a respirar em fragmentos:
luzes intermitentes, vozes sem acabar frases,
elétricos rangendo memórias mal tratadas.
E nós,
com mãos ocupadas em pequenos medos úteis,
medimos distâncias com réguas quebradas,
traçamos limites no pó de coisas apagadas.
Ir longe demais
não é um gesto heróico.
Antes é
um desvio imperceptível,
pegada que não pede abrigo ao chão.
Há sempre um ponto onde o nome das coisas falha:
o mar já não é infinito, o corpo já não é casa,
o tempo esquece a sua própria cronologia.
E é aí
nessa margem onde o sentido se dissolve
como tinta em água turva, que
algo começa a falar sem linguagem.
Talvez nada se descubra.
Talvez o longe seja um espelho atrasado
onde nos revemos lentos na miragem.
Mas quem recua cedo demais
fica preso à primeira versão do mundo,
à superfície intacta e pura.
onde tudo e nada acontece.
Ir além é consentir na erosão:
deixar que o excesso desfaça o traço,
e o desconhecido respire por cima
de um palimpsesto que julgámos ser.
E no fim,
se houver um fim,
não haverá medida,
nem resposta -
apenas a estranha lucidez
de ter ido longe até onde
o lugar não cabia em nós.
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