Mensagens

às vezes

Para Frida Kahlo às vezes é preciso continuar     atravessar a sala     como quem percorre o país que desconhece o destino do seu nome                    acenar para  o espelho           sem saber quem     acena do outro lado é preciso continuar como se o ar não pesasse como se as mãos               não tocassem                         o que fazem como se o silêncio        fosse apenas silêncio         e não a forma exacta              do que aconteceu é preciso continuar sem testemunhas              ruínas visíveis   que plantam o vazio   a meio do peito continuar como se nada         como se ninguém             ...

os outros

L'enfer, c'est les autres! ( Jean-Paul Sartre, Huis Clos, 1944 ) 1.    vivemos encostados           a vozes que entram sem bater à porta há sempre alguém a medir-nos         o peso das mãos           a sombra do corpo               a falha do sorriso 2. a medida do lugar faz de nós objectos cativos do olhar do outro cada rosto é um espelho virado para dentro o ar pesa como um retrato que envelhece as paredes aprendem os nomes antes da chegada o silêncio continua a conversar como uma lâmina sem mãos... apercebemo-nos de que este não é  o nosso lugar            partimos sem fechar a porta 3. ninguém                    nos toca (e no entanto há marcas) o pior cárcere    não tem grades  tem olhos

Amor fati

em linhas do chão tropeças  &em pregos soltos do peito sombras alongadas   não se contornam -        entra-se por elas   o que pulsa não se anuncia   quieto se entrega        ao saber o que importa                            silêncio que age               passo que sustenta   presença que queima   a matriz do medo      guardo o que resta - o juízo claro             a vontade recta

fôlego

chamavam-lhe isolamento  prefiro chamar-lhe fôlego  lá fora o ruído dos outros   arranhava-me a pele  como se cada gesto alheio   me roubasse o sopro de ar havia dias em que tentava fingir  que era feito do mesmo barro  mas bastavam poucos minutos  para sentir o corpo a ceder - cão magro à procura de sombra no meu canto tudo fazia sentido - o silêncio era beata de cigarro a penumbra um golpe de força  a renascer sem testemunhas  sem exigências sem máscaras não era orgulho nem virtude  nem doença - continuar inteiro  num mundo que tritura homens  cospe ossos - cada um escolhe o veneno que o mantém vivo

aritmética

C'est normal que les cons gagnent toujours, ils sont majoritaires. Louis-Ferdinand Céline a democracia é uma simples equação: quem conta os votos não precisa de saber contar os espertos    constroem pontes os outros                    decidem para onde vão no fim a mediocridade não é uma tragédia é uma questão de                 aritmética

em vias de extinção

(quase ninguém repara      no leve cintilar   entre as frestas do dia) há cores      que se calam         antes de serem vistas e o vento   (sibilante de presságios)   passa         sem deixar memória olhos fechados abertos         atravessam ruas -                  mãos de nada gestos repetem gestos          máquinas de carne     (sem interrogação            &espanto) e assim      o raro dissolve-se       em silêncio comum como um sussurro      perdido        antes de nascer

raízes

Há nomes apagados com cal. Debaixo do jardim as pás aprendem silêncio. A chuva faz o resto. Os rostos descem sem ruído, como sementes proibidas. Depois, as praças ficam limpas, os arquivos dormem, as janelas respiram cortinas fechadas. E alguém atravessa a manhã com as mãos intactas. Só os cães farejam no inverno uma verdade obscura debaixo das raízes.

o ofício

Sim, é essa a tarefa do artista: extrair o mineral da terra silenciosa e escura e transformá-lo numa forma celestial que reflita a luz. Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto , 2016.  Quem desce ao ventre do mundo sabe o peso do que aguarda -                matéria bruta, cega,              séculos de esquecimento. Há um ofício antigo nas mãos que sangram ao tocar o bruto,            a moldar o que ninguém ainda viu. O criador não inventa - reconhece .   Encontra no caos dormente                      o osso da beleza, retira-o devagar, como quem acorda  de um sonho há milénios. E depois vem o fogo, a forja, o sopro, a paciência de dar contorno         ao que não tinha nome.      Até que o mineral contile     na matéria do silêncio -        algo que...

univers revers

A artroplastia reversa tem algo profundamente simbólico. Quando a mecânica antiga falha, a re-invenção do corpo cria uma nova fórmula.  Há nisso uma espécie de dignidade silenciosa:  prótese, ossos, inversão, re-aprendizagem do gesto.  Quase uma revolução anatómica.  Quase uma outra vida. No ombro, a prótese implantada trocou o lugar da antiga fórmula. O corpo, confuso, aprendeu outra geometria. Agora o braço sobe até ao céu não pela memória, mas por um pacto metálico. Dentro do osso, um pequeno planeta inverso gira sem infância. E mesmo assim, ergue o pão, abre a janela, segura a chuva.

a incerteza

When we are not sure, we are alive . Graham Greene Caminhamos sobre a névoa, onde o chão não se entrega.  É na curva cega da estrada, que o peito cru se expande. O sangue ganha espessuras, pupilas devoram penumbras, o devir abandona o guião por sinais um abismo insondável. Quem sabe tudo                                   adormece, os dias replicam-se em ecos sem fins, respiramos ventos de impossibilidade. O peito bate mais forte precisamente  quando ignora a sombra do desfecho.