fôlego
chamavam-lhe isolamento
prefiro chamar-lhe fôlego
lá fora o ruído dos outros
arranhava-me a pele
como se cada gesto alheio
me roubasse o sopro de ar
havia dias em que tentava fingir
que era feito do mesmo barro
mas bastavam poucos minutos
para sentir o corpo a ceder -
cão magro à procura de sombra
no meu canto tudo fazia sentido -
o silêncio era beata de cigarro
a penumbra um golpe de força
a renascer sem testemunhas
sem exigências sem máscaras
não era orgulho nem virtude
nem doença - continuar inteiro
num mundo que tritura homens
cospe ossos - cada um escolhe
o veneno que o mantém vivo