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caligrafia irregular

Cicatrizes não são feridas. São um exemplo da caligrafia irregular que o tempo deixou sobre a matéria. Há uma luz áspera em cada marca, como se a pele guardasse fragmentos de tempestades antigas. O mármore não sangra. O metal não sonha. As estátuas atravessam séculos sem uma única cicatriz.   Somos feitos de quedas, incêndios, portas fechadas, amores residentes ou vagabundagens. Cada sinal gravado no corpo ou no invisível é uma testemunha silenciosa chamada a depor:  - Sim, este corpo passou por aqui. Sentiu o peso da noite. Conheceu o frio. Perdeu. Recomeçou.  Cicatrizes não falam de dor. Falam de permanência. Paisagens gravadas no tempo que o corpo abraçou.

o leitor

A paz é isto: a negação do gesto,    um espaço a voar que não se abre. Escrever  como quem   respira para                   dentro.  Nenhuma porta. Nenhum ruído. Só a frase     voltada para si mesma, intocável,                    intocada                    Publicar seria      um passo a mais  antes do passo -     a palavra descansa.  Pura vibração, puro ser, um eco que dispensa  o eco.   Talvez escrever  seja apenas isto:         habitar o invisível  onde o silêncio       é o verdadeiro leitor.

a margem

A slave is one who waits  for someone to come  and free him.  Ezra Pound                          Não esperes. A corrente aprende o pulso antes do ferro. Vi homens sentados à sombra de colunas,  contando                       as sandálias dos deuses                   como quem conta moedas.                                             Esperavam. O mar não enviou arautos.              A montanha não se moveu.  Nenhuma águia transportou                          a chave do enigma.  A espera rompeu a pedra               sem testemunhas. E...

o poder

quem                    guarda                                         silêncio gov         erna. a boca é um cofre com a chave                     dentro (os que sabem falam                     pouco os que falam             muito                                sabem que estão                     de                             fora) há um lugar sem                                 nome no centro d      ...

às vezes

Para Frida Kahlo às vezes é preciso continuar     atravessar a sala     como quem percorre o país que desconhece o destino do seu nome                    acenar para  o espelho           sem saber quem     acena do outro lado é preciso continuar como se o ar não pesasse como se as mãos               não tocassem                         o que fazem como se o silêncio        fosse apenas silêncio         e não a forma exacta              do que aconteceu é preciso continuar sem testemunhas              ruínas visíveis   que plantam o vazio   a meio do peito continuar como se nada         como se ninguém             ...

os outros

L'enfer, c'est les autres! ( Jean-Paul Sartre, Huis Clos, 1944 ) 1.    vivemos encostados           a vozes que entram sem bater à porta há sempre alguém a medir-nos         o peso das mãos           a sombra do corpo               a falha do sorriso 2. a medida do lugar faz de nós objectos cativos do olhar do outro cada rosto é um espelho virado para dentro o ar pesa como um retrato que envelhece as paredes aprendem os nomes antes da chegada o silêncio continua a conversar como uma lâmina sem mãos... apercebemo-nos de que este não é  o nosso lugar            partimos sem fechar a porta 3. ninguém                    nos toca (e no entanto há marcas) o pior cárcere    não tem grades  tem olhos

Amor fati

em linhas do chão tropeças  &em pregos soltos do peito sombras alongadas   não se contornam -        entra-se por elas   o que pulsa não se anuncia   quieto se entrega        ao saber o que importa                            silêncio que age               passo que sustenta   presença que queima   a matriz do medo      guardo o que resta - o juízo claro             a vontade recta

fôlego

chamavam-lhe isolamento  prefiro chamar-lhe fôlego  lá fora o ruído dos outros   arranhava-me a pele  como se cada gesto alheio   me roubasse o sopro de ar havia dias em que tentava fingir  que era feito do mesmo barro  mas bastavam poucos minutos  para sentir o corpo a ceder - cão magro à procura de sombra no meu canto tudo fazia sentido - o silêncio era beata de cigarro a penumbra um golpe de força  a renascer sem testemunhas  sem exigências sem máscaras não era orgulho nem virtude  nem doença - continuar inteiro  num mundo que tritura homens  cospe ossos - cada um escolhe o veneno que o mantém vivo

aritmética

C'est normal que les cons gagnent toujours, ils sont majoritaires. Louis-Ferdinand Céline a democracia é uma simples equação: quem conta os votos não precisa de saber contar os espertos    constroem pontes os outros                    decidem para onde vão no fim a mediocridade não é uma tragédia é uma questão de                 aritmética

em vias de extinção

(quase ninguém repara      no leve cintilar   entre as frestas do dia) há cores      que se calam         antes de serem vistas e o vento   (sibilante de presságios)   passa         sem deixar memória olhos fechados abertos         atravessam ruas -                  mãos de nada gestos repetem gestos          máquinas de carne     (sem interrogação            &espanto) e assim      o raro dissolve-se       em silêncio comum como um sussurro      perdido        antes de nascer