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inventam-te

         Ninguém chega com os olhos vazios.    Trazem já um retrato dobrado no bolso, uma moldura à procura de um rosto. Não te veem. Medem-te com réguas herdadas, vestem-te com palavras antigas, confundem a tua respiração com o eco das próprias vozes. És, para cada um, uma imitação imperfeita. Quem te chama luz talvez precise apenas de um lugar onde descansar                      a sombra. E tu, que julgavas oferecer um espelho,    descobres que és um vidro baço onde cada olhar esboça o molde da própria face. Há quem te invente  como tudo,        há quem te invente como nada,          há quem faça da tua ausência uma culpa, e da tua presença           uma ameaça. Nenhuma dessas figuras       aprendeu o teu nome.        

os 3 pês

pensamento - coisa não há distância entre  nomear                  e ser o olho fixa       a mármore quebra in the mind’s eye  existe o que                        ainda  não tocaste pedra             palavra                            peso   tudo numa só             queda  

paisagens

Hoje nada tenho a dizer, e por isso falo. As palavras, quando perdem o destino, aprendem a caminhar descalças.     Sentam-se ao lado das pedras, escutam o pó, contam os segundos como quem descasca uma romã e encontra sementes de silêncio.  Hoje nada tenho a dizer,                e por isso a voz  deixa de ser ferramenta, torna-se paisagem. Falo para que o vazio não obscureça.        Falo porque o eco    precisa de um corpo onde cair.      A frase falha: quando abre     cada janela para um abrigo     de gente inabitável. Talvez seja isso  a linguagem - um incêndio lento onde a luz devora nomes & paredes. Hoje não nada tenho a dizer. Mas a boca persiste -  cada rio  desconhece  o mar, mas não desiste de inventar      a revolta no seu caminhar.

auditório

​ The less talent they have,  the more pride, vanity and arrogance they have.  All these fools, however, find other fools who applaud them . Erasmus Roterodamus Quanto menor                       a chama, maior a fumaça. E há sempre quem a confunda com                   o incêndio.

inventário

Para Anne Sexton Tinha um cora ção que era grande demais, como um casaco comprado na loja errada - caro, bonito, impossível de usar.  A minha mãe disse: encolhe. O médico disse: tome isto. O padre disse: reze. E eu disse sim, sim, sim com a boca cheia de não. Fui ao supermercado comprar leite e voltei com a certeza de que algo em mim tinha apodrecido antes do prazo, sem aviso na embalagem, sem direito a devolução. Há uma mulher dentro de mim que grita mas aprendeu a gritar em frequências que os cães não ouvem. Usa vestidos de algodão. Faz a cama de manhã. Sorri na fotografia de família. À noite desfaz tudo isso com as mãos. Os psiquiatras têm palavras para o que sou. Palavras longas, latinas, respeitáveis. Prefiro a palavra fenda  - aquela linha fina numa parede que ninguém conserta porque a casa ainda não caiu. Ainda não. Tenho uma vida que cabe numa mala de mão e pesa como um piano. Não sei se isto é uma lista de provas para um julgamento onde sou a ré, a juíza, e ...

a janela

o  silêncio  ocupa                                 sempre  espaço alguém partiu          a chávena continua a ter    a forma da última mão que lhe tocou  esperei tanto                               que aprendi  o nome de     todas as manchas negras visíveis                          sobre o tecto perguntas-me como estou  olho pela janela                                 digo: bem

elogio da merda

  louv- ada sejas tu(quem mais ousa ser)honesta a manhã chega e a privada questão ninguém fala                          (sabedoria fácil de ocasião) enquanto o mundo se veste  de          perfumes & mentiras-engravatadas a rosa (a mesma rosa que os poetas dizem bonita) cresce porque alguém antes cagou na terra ninguém te aplaude(coitada) mas sem ti nem o pão nem o poema nem eu vivemos -merda- a única palavra que o corpo nunca engana então - que se diga: abaixo  a vergonha acima o cheiro o verdadeiro cheiro de estar vivo

náusea

Sachez avoir tort. Le monde est rempli de gens qui ont raison. C'est pour cela qu'il écoeure. Louis-Ferdinand Céline  admite que erras este mundo é  superlativamente habitado por gente que  (nunca) erra uma espécie de náusea              a alimentar       a fome de vida 

respiração

Do you hate people? I don't hate them... I just feel better when they're not around. Charles Bukowski não-odeio-pessoas mas    prefiro-as distantes (as estrelas             são mais belas  tanto mais distantes) a-gente-perto-demais sufoca o ar         fica              espesso de        palavras o silêncio é    o único amigo        que não     pede nada não-as-odeio apenas        respiro melhor        sozinho

metamorfoses

a humanidade é um polvo de mentiras tentáculos cegos a-c-i-d-e-n-t-al   mente abraçam                  -se como        raízes  invisíveis (de uma árvore milenar)  quanto mais fundo cavamos mais somos a meta         (morfose)  perfeita da  mentira