inventário

Para Anne Sexton


Tinha um coração que era grande demais, como um casaco comprado na loja errada - caro, bonito, impossível de usar. A minha mãe disse: encolhe. O médico disse: tome isto. O padre disse: reze. E eu disse sim, sim, sim com a boca cheia de não.

Fui ao supermercado comprar leite e voltei com a certeza de que algo em mim tinha apodrecido antes do prazo, sem aviso na embalagem, sem direito a devolução.

Há uma mulher dentro de mim que grita mas aprendeu a gritar em frequências que os cães não ouvem. Usa vestidos de algodão. Faz a cama de manhã. Sorri na fotografia de família.

À noite desfaz tudo isso com as mãos.

Os psiquiatras têm palavras para o que sou. Palavras longas, latinas, respeitáveis. Prefiro a palavra fenda - aquela linha fina numa parede que ninguém conserta porque a casa ainda não caiu.

Ainda não.

Tenho uma vida que cabe numa mala de mão e pesa como um piano.

Não sei se isto é uma lista de provas para um julgamento onde sou a ré, a juíza, e a faca.

ler mais...

hora de ponta

quimeras na bagagem

mundos paralelos

o caderno escuro

a deusa

país rectângulo

a luz depois

vertigem

peça a peça