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o ofício

Sim, é essa a tarefa do artista: extrair o mineral da terra silenciosa e escura e transformá-lo numa forma celestial que reflita a luz. Philip K. Dick, O Homem do Castelo Alto , 2016.  Quem desce ao ventre do mundo sabe o peso do que aguarda -                matéria bruta, cega,              séculos de esquecimento. Há um ofício antigo nas mãos que sangram ao tocar o bruto,            a moldar o que ninguém ainda viu. O criador não inventa - reconhece .   Encontra no caos dormente                      o osso da beleza, retira-o devagar, como quem acorda  de um sonho há milénios. E depois vem o fogo, a forja, o sopro, a paciência de dar contorno         ao que não tinha nome.      Até que o mineral contile     na matéria do silêncio -        algo que...

univers revers

A artroplastia reversa tem algo profundamente simbólico. Quando a mecânica antiga falha, a re-invenção do corpo cria uma nova fórmula.  Há nisso uma espécie de dignidade silenciosa:  prótese, ossos, inversão, re-aprendizagem do gesto.  Quase uma revolução anatómica.  Quase uma outra vida. No ombro, a prótese implantada trocou o lugar da antiga fórmula. O corpo, confuso, aprendeu outra geometria. Agora o braço sobe até ao céu não pela memória, mas por um pacto metálico. Dentro do osso, um pequeno planeta inverso gira sem infância. E mesmo assim, ergue o pão, abre a janela, segura a chuva.

a incerteza

When we are not sure, we are alive . Graham Greene Caminhamos sobre a névoa, onde o chão não se entrega.  É na curva cega da estrada, que o peito cru se expande. O sangue ganha espessuras, pupilas devoram penumbras, o devir abandona o guião por sinais um abismo insondável. Quem sabe tudo                                   adormece, os dias replicam-se em ecos sem fins, respiramos ventos de impossibilidade. O peito bate mais forte precisamente  quando ignora a sombra do desfecho.

corpo vivo

bebo sozinho às 3 da manhã por um copo rachado                     nele reconheço        cada ferida em mim (o problema não é o mundo) ninguém se senta ao meu lado para rir comigo do mesmo lixo queria um corpo vivo   encostado ao meu ombro  e que dentro de mim  dissesse: essa merda também                            me acontece

a agulha

Si le travail c'est l'opium du peuple, alors je ne veux pas finir drogué... Boris Vian se o trabalho é o ópio do povo prefiro a lucidez da fome a claridade feroz de não ter  nada a fazer a não ser existir os outros injectam-se de horas de metas de produtividade - [recuso a agulha] - há uma dignidade estranha em ficar parado à janela a ver a luz mudar de sítio isso também é trabalho - mas esse não vicia

obviamente

perguntam para que                serve  a poesia  como se a madrugada não habitasse o escuro   o sal tivesse de provar a essência do mar o café arde na língua sem missão alguma a morte troca  as flores de lugar                e nós  animais breves inventamos               versos abrimos sílabas para que o vazio aprenda a respirar

devagar

Pássaros nascidos  em gaiolas   olham o voo como doença. As asas batem  e aprendem o metal. O céu é febre.  O ar aberto, veneno. Ser livre  é o que mais temem.  E chamam lar ao que os mata devagar.

a velocidade absurda

A casa é uma fábrica de ecos. As paredes aprendem depressa os nossos tiques: a maneira como desistimos da manhã, o copo esquecido junto ao lava-loiça, a cadeira onde o corpo abandona lentamente a própria fome. Dentro de casa os pensamentos fermentam mal. Ganham bolor nas extremidades, falam com a voz cansada dos candeeiros, vestem o robe húmido do fim de tarde. Um pensamento doméstico raramente conhece o vento. Nunca atravessou uma avenida com chuva na cara, nunca perdeu o autocarro, nunca ouviu dois desconhecidos rir no fundo de um café. A casa protege e inventa labirintos pequenos. Há ideias que só existem porque o tecto é baixo e o silêncio engorda os móveis durante a noite. Por isso desconfio sempre  das conclusões repentinas entre o quarto e o corredor. Levo-as à rua. Se sobreviverem ao frio, aos cães de açaime, às montras de néon, à velocidade absurda das árvores num comboio, talvez sejam verdade.

ideias & casas

Never trust a thought that occurs to you indoors . Friedrich Nietzsche Nunca confies              num pensamento nascido entre paredes. A casa é especialista          em repetir sombras. Há ideias que só parecem verdade      porque a janela está fechada.

o sentido

If you look for a meaning, you'll miss everything that happens. Andrei Tarkovsky se procuras um sentido perdes o instante em que a folha hesita            antes de cair:                o riso que nenhum porquê questiona                  a mão que toca (como se fosse               um pássaro sem asas) o sentido   simplesmente acontece mas      deixa a pergunta cair (como o fruto  que recusa ser colhido) repara - nenhum abismo           nenhum absurdo apenas   (um pássaro que voa e não pergunta                              onde) apenas   (uma porta que abre sozinha (como a luz                          a tarde como         ...