o operário
Detesto a ferrugem do que já foi dito. As coisas pedem obediência: a pedra exige peso, o relógio exige horas, o mapa insiste onde o horizonte acaba e a tinta se esgota. Mas há um lugar que nenhum alicerce alcança. Ali, o pensamento aprende o ofício dos vulcões. Não aceita a paisagem. Acende outra & outra. Com as mãos vazias fabrica oceanos para peixes sem nome, ergue árvores, frutos que amadurecem antes da semente, e ergue vastas cidades onde janelas sem luz olham para dentro dos sonhos. Não sabem que toda a ponte foi primeiro desobediência, toda a estrela desenhada na infância foi um ensaio para incendiar o universo. A realidade é a primeira versão que não acaba de escrever-se. E eu, operário do impossível, entro todos os dias na fábrica silenciosa da imaginação, onde o que existe nunca ordena e o desejo aprende vagarosamente a existir.