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fenda

Para Carmen Martín Gaite a pretexto do poema Certeza, (As rachas. Poesía reunida, 2023 ) Cercaram-me com pedras (esqueceram-se  do vento).     Ergueram muros  como  quem  veste  por hábito                   o silêncio (e me pudesse                              habituar).  Queriam que  o corpo se  tornasse mobília ,     o desejo renunciasse -                   a ter direcção.  Fico.  Nem um centímetro  de rebeldia  se atreve a  romper o chão.                           Fico. Mas não lhe pertenço.       Aprendi que limites são mapas: uma fenda  mínima, quase  erro -  onde  a luz insiste  em  não  obedecer (n ã...

o homem real

Para Paul Auster O espaço resume-se a isto: uma mesa, uma lâmpada, a máquina de escrever. Lá fora, o mundo é um ruído de estranhos, uma sucessão de coincidências sem nome.  Mas ao sentar-me, a geografia muda. Não há mapas para o que as teclas procuram. Cada batida é um passo num labirinto onde a saída não importa, mas a precisão do rasto. Sou o arquitecto de uma cidade de tinta, erguida no silêncio de um quarto fechado. Um homem que escreve para saber onde está, inventando o céu para não morrer sufocado pela métrica dos dias.  A liberdade não é um horizonte aberto. É o arco que vai do pensamento ao punho, a recusa de ser  uma sombra no asfalto: um homem que se escreve até se tornar real.

5 ai cus

1 agora: o tempo falha por excesso de si 2 presente: nega-se a durar  e permanece 3 nenhum antes nenhum depois logo: tudo 4 instante: inteiro o que é  fora do tempo 5 eterno: o saldo do tempo  que se contradiz

a medida exacta

To do the useful thing, to say the courageous thing, to contemplate the beautiful thing: that is enough for one man’s life. T. S. Eliot, The Use of Poetry and the Use of Criticism, 1933. O presente e o passado talvez residam somente no calo da mão que cultiva. Não no gesto heróico das estátuas que descansam na praça, mas antes no fazer a coisa útil : o conserto do muro, a distribuição do pão, a precisão do artesão que ignora o aplauso das galerias, como se a utilidade fosse uma forma de oração sem palavras. Depois, há o peso do ar nos pulmões,  necessidade de dizer a coisa corajosa . Não o grito do demagogo ou a fúria do mercado, mas a palavra que corta a névoa, dita no momento em que o silêncio seria mais confortável. Uma verdade seca, como um osso ao sol, que não se dobra à conveniência das sombras. E, no fim do corredor pleno de ecos: c ontemplar a coisa bela. Não a beleza que distrai, mas a que detém o brilho da luz sobre o vidro quebrado, o padrão oculto no movimento das á...

o fundo da chávena

acordei tarde ou cedo demais  dependendo  do lado esculpido                    da garrafa a cidade já estava  a tentar vender cedo o dia a cidade de dentes brancos opiniões recicladas em catálogos ambulantes de coisas que tentam ser compradas homens de gravata invisível  com cara de enterro mal pago empurram-se no metro  como se o inferno pagasse  o salário  uma mulher grita patética  ao telemóvel                         ninguém olha há regras a cumprir não se olha de frente para    o ridículo  dos outros a menos que dê lucro há quem acorde para correr  atrás do  sucesso e tropece na mesma pedra - o desespero de parecer interessante: publica frases que não entende fotografa comida que não saboreia vive vidas que não lhes pertencem tudo para ganhar  u m like esse pequeno  orgasmo  ...

cúmplices

A cobardia não grita em alvoroço, não fecha as portas com estrondo, não rasga o ar com botas. Senta-se. Espera. A cobardia veste roupa comum, tem mãos limpas, olhos baixos, e um silêncio muito bem educado. Dizem: Não é o momento . Dizem: Não fui eu . Dizem: Nada posso fazer . E assim se constrói um muro sem tijolos visíveis. Enquanto isso, alguém cai. E quem viu, ajusta o casaco, consulta o relógio, engole a palavra que poderia existir. A cobardia não precisa de armas. Basta-lhe o intervalo entre o que se sabe e o que se diz. Basta-lhe o pequeno acordo com o conforto, essa cadeira demasiado mole onde a consciência adormece. Mas há um detalhe incómodo: a cobardia nunca age sozinha. Multiplica-se em cada ombro encolhido, em cada riso deslocado, em cada porta que não se abre. E quando por fim perguntam: Quem deixou que isso acontecesse? a cobardia, discreta, abandona a sala.

autobiografia de ninguém

As pessoas queriam um perdedor que se tornasse um vencedor. Ou um vencedor que se tornasse um vencido. Mas um perdedor que continuasse a ser um perdedor? Isso era muito parecido com elas próprias. Não estavam interessadas em si mesmas. Charles Bukowski ficavam à espera de uma queda ou de um milagre como quem aposta num cavalo coxo ou num santo bêbado queriam a curva nunca a linha  recta um homem                        que subisse  com sangue nos dentes ou       descesse com estilo suficiente para ser citado mas não suportavam o tipo que ficava sentado no mesmo banco com o mesmo copo e a mesma história esse homem era perigoso o espectáculo                  mal iluminado não prometia  redenção                com digno  final   ninguém              ...

Grau 103⁰

Para Sylvia Plath A febre rasga-me em dois. Não há metáfora do corte Cada respiração um estilhaço,  cada gota de  suor uma confissão Sinto a carne soltar-se,  sem suavidade, e com pele arrancada a seco: a febre quer-me limpa,  quer-me branca,  quer-me vazia, quer-me sem nome O espelho rejeita a face, mostra-me a espada - uma lâmina piedosa Corta o supérfluo,  separa a luz - o exorcismo branco Há um ponto em que o calor se torna oração.  Ali, no centro do peito,  algo se abre - a ferida  aprende a cantar.  Ponto em que o calor se torna redenção   Ali, no centro do peito,  arde o que resta da culpa,  arde o que resta de mim Quando a febre finalmente cede, não volto a ser carne. Sou quase santa ou quase nada - um segredo sonoro regressa do próprio corpo. Cinza suspensa, o silêncio  a arder devagar - o nome que se escreve sozinho

a contrapartida secreta

O sentido é invisível mas o invisível não é contraditório do visível; o próprio visível tem uma organização interna invisível e o in-visível é a contrapartida secreta do visível. Merleau-Ponty , Working Notes (1959-1961) (dentro  do  que é  visto  entre  as vértebras                         de luz existe  uma ordem: cada traço nervo aresta guarda em si  a arquitectura das         sombras que moldam o real) visível é a margem & in-visível o rio que corre por baixo: o sentido não se vê m a s respira  não se deixa tocar pelas                        mãos        nem se oferece                  ao repouso do ol...

O Verbo Imóvel

Dizem-me: cresce. Como se fosse uma escada esquecida encostada  a uma parede. Como se dentro de mim houvesse degraus por inaugurar, como se a vida fosse uma sucessão de andares e eu, um inquilino atrasado. Mas não subo. Não desço. Não me desdobro em versões mais  aceitáveis de mim mesmo. Eu sou. É curioso, não é? Essa fome dos outros de me verem mudar. Tornar-me melhor, maior, mais qualquer coisa. Como se o presente fosse um rascunho e o futuro, essa promessa mal iluminada, o único lugar onde finalmente justificaria  a minha existência. Mas não sou um projecto. Não sou uma obra em andamento com andaimes  emocionais. Não há fita de inauguração no meu peito. Eu sou. Ser.. é  um verbo pesado, não porque exija esforço, mas porque recusa movimento. Ser não pede aplauso, não pede direcção. não pede sequer compreensão. Ser é esse instante bruto, sem antes nem depois, sem currículo, sem meta. E talvez seja isso que os inquieta. O meu desinteresse em...