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recibo

supõem que me estão a inventar? um homem num quarto barato com o gosto metálico da noite supõem que me olho  no espelho?            O tipo que lá está  parece ter  perdido as suas guerras embora não se lembre - o café é fraco e lá fora passam carros buzinando  memórias como se soubessem  onde vão - o que é suspeito  (acendo um cigarro  imaginário os reais acabaram ontem  junto com  algumas  certezas  que fingia ter) supõem que me estão a inventar? a comédia alternativa seria  admitir  que o trabalho sério os bares  a mulher  desejável  tudo já  havia sido reescrito  num  guardanapo  amarrotado em algum bar onde o universo bebe                                  sozinho então invento mais um dia  mais  uma versão            ...

corpos escritos

Fazer amor em poesia não é deixar a marca de rimas  num lençol branco  ou procurar a metáfora perfeita para o teu flanco.  É um acto de desobediência contra o silêncio. É tirar a roupa das palavras até que elas fiquem nuas, trémulas, sem o casaco pesado dos dicionários ou a gravata apertada da sintaxe. É ler a tua pele como se fosse um manuscrito  descoberto numa cave  cheirando a café, jazz  e revolução  onde cada curva do teu corpo é um verso que o censor se esqueceu de apagar. Não precisamos de gramática para este momento. A nossa pontuação é o fôlego curto: um ponto final no umbigo, reticências que descem pelas vértebras, um ponto de exclamação no encontro das bocas. Estamos a imprimir uma edição clandestina de nós próprios, sem editores, sem revisores, sem medo de que o mundo lá fora não entenda a nossa métrica selvagem. Porque, no fim, meu amor, a melhor poesia não se lê com os olhos: escreve-se com o peso do corpo.

Autobiografia

  Para Dorothy Parker Oh, both my shoes are shiny new,      And pristine is my hat; My dress is 1922. . . .     My life is all like that. ( Autobiography from Enough Rope , 1926) Oh, os meus novos sapatos brilham, como promessas recém-nascidas vernizes ainda intactos reflectindo um mundo que mal me reconhece E antigo é o meu chapéu; traz na aba o pó de estações vividas a sombra de pegadas de outras ruas O meu vestido é de 1922… cheira ao riso das festas antigas música de gramofone invisível eco de vozes que risos silenciam A minha vida inteira é assim. um brilho incerto começa nos pés uma memória faz ninho na cabeça

Ode à Desobediência

Para Álvaro de Campos  À vontade de ser tudo e o nada que me dão, Às ordens vindas de baixo, de cima, de lado, Respondo com o estalido seco da minha própria negação! Desobediência é coerência, ouvi dizer, E que frase tão certa para quem tem o universo a arder no peito E um relógio de pulso a marcar as horas de um tédio infinito. Sinto-me um motor gripado no meio da multidão ordenada! Todos caminham para o emprego, para a ceia, para a morte previsível, E eu, que sou um amontoado de sensações contraditórias, Desobedeço à linha recta porque o meu destino é o desvio! Sim, sou coerente com a minha própria incoerência, Com esta inquietação que é a única coisa real que possuo. Mandam-me ser útil? Eu sou inútil como uma estrela ao meio-dia! Mandam-me ser prático? Eu perco-me a contar as manchas de óleo no Tejo! Toda a gente aceita o contrato, a submissão, a etiqueta, Mas eu, Álvaro de Campos, engenheiro de nenhures, Saúdo a revolta de não querer ser nada do que me é imposto...

trilha

  Em três palavras posso resumir tudo o que aprendi sobre a vida: ela continua. Robert Frost a vida passa - caminho dividido na floresta quando o outono começa a dourar as folhas e ninguém garante que a trilha guarda menos pedras aprendi que a vida não anuncia que passo fará a diferença apenas oferece duas direcções e o silêncio entre elas o vento inclina os galhos a luz atravessa a floresta em lâminas finas há sempre uma simples cerca a separar o terreno familiar do desconhecido em três palavras posso resumir tudo o que aprendi sobre a vida: escolhe e caminha não porque o caminho seja claro mas porque ficar parado é uma escolha e a tarde não espera quando a noite vier direi que tomei a trilha certa ou que apenas tomei uma trilha - e foi quanto baste

os dinossauros

os dinossauros não vieram com escamas vieram de camisa aberta e gravata barata acordam às seis  cagam às seis e quinze apanham o metro às seis e quarenta há café queimado há chefes piores há espelhos que sempre mentem melhor do que qualquer amante os dinossauros usam cartões de crédito sorriem quando querem esmurrar alguém aprendem que a oportunidade significa trabalhar até a coluna esvair-se em pó as mulheres bebem whisky barato os homens fingem entender de política todos fingem não terem medo de morrer exactamente igual ao vizinho os jornais vendem o medo em promoção as igrejas vendem a palavra eternidade os bares vendem o nirvana do instante alguém olha para as contas da casa verificando que não foi um asteróide que matou os dinossauros e grita: - "Não se paga! Não se paga!" foi o login no trabalho  foi a prestação do carro foi a prestação da casa foi a esperança  que morreu  devagar no apartamento  com vista para outro apartamento e amanhã ...

sílaba a sílaba

Homenagem a Cummings o poema ​v    a        I ​(c a i n d o) ​silenciosa mente (sílaba a sílaba)no mundo da cor ​ se o vento(esse velho impostor)soprar segredos na BOCA das árvores ​ estaremos (rindo) n o  ou  tro  la  do do mundo ​com mãoscheias de nada &nenhum ponto final

a regra d'ouro

Primeiro, declara-se a guerra. Não em voz alta - em reuniões discretas, com café quente e gráficos claros. Depois, explica-se ao povo que é pelo bem comum. O bem, claro,  já está definido por investidores & accionistas. Os pobres oferecem os corpos, os ricos oferecem opiniões. Uns perdem pernas, outros ganham contratos. A bomba cai democraticamente, mas a conta sobe em exclusivo. Há quem morra anónimo, há quem assine em dourado. Chamam “sacrifício” ao que jamais sacrificariam. Chamam "defesa" ou "ataque preventivo"  quando iniciam ofensiva. Chamam “inevitável”  a tudo o que é lucrativo. Quando tudo arde, aparecem salvadores com capacete novo e facturas antigas. Reconstrói-se o país, não a justiça. Enterram-se os mortos, não os responsáveis. E no fim, se alguém perguntar “porquê?”, responde-se com seriedade: - porque funciona.

eclipse

  Para Edmond Jabès O eclipse não dramatiza a sombra: observa-a  a trabalhar. O escuro não vem como punição, mas como forma provisória de leitura. A mão que cobre o rosto inaugura um saber antigo: ver menos para ver melhor. O divino como um livro ilegível de tanto ter sido tocado pelo fogo. O eclipse é isso: um acordo silencioso para que o instante por um segundo exacto saiba que é dono de si. Escrever torna-se navegação às cegas, registo do abalo, e não da rota. Entre partida e regresso, o poema aceita a sua condição de bordo instável. Nada se fixa, tudo se anota. Todo o livro é um livro de bordo . Toda a leitura, uma travessia. E quando se fecha o rosto com a mão, não é sombra: é o eclipse a ensaiar, em nós, a sua lenta, perfeita caligrafia.

poesia

Para Marianne Moore A mim também não me agrada - disse, com a franqueza de quem não pede licença à reverência. A poesia começa aí: nesse ligeiro encolher de ombros, no desajuste entre expectativa e respiração. Lemo-la com perfeito desprezo - como quem entra num quarto apenas para confirmar que nada ali lhe pertence. E, no entanto, algo insiste: entre sílabas mal iluminadas, entre uma imagem que falha e outra que se repete, descobre-se afinal um lugar para o genuíno . Não o genuíno polido, nem o que sabe posar para retrato, mas esse que tropeça, que fala baixo, que chega atrasado à própria frase, sabendo que a poesia não promete  conforto, entrega restos: ossos limpos de emoção fácil, ritmos que não pedem aplauso, palavras sem vocação para slogan. E aí,  no atrito entre desprezo e atenção, algo respira: uma coisa pequena, obstinada, indiferente ao gosto, imune à moda. Chamamos-lhe poesia por falta de melhor nome, mas ela prefere existir como alguém que n...