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trilha

  Em três palavras posso resumir tudo o que aprendi sobre a vida: ela continua. Robert Frost a vida passa - caminho dividido na floresta quando o outono começa a dourar as folhas e ninguém garante que a trilha guarda menos pedras aprendi que a vida não anuncia que passo fará a diferença apenas oferece duas direcções e o silêncio entre elas o vento inclina os galhos a luz atravessa a floresta em lâminas finas há sempre uma simples cerca a separar o terreno familiar do desconhecido em três palavras posso resumir tudo o que aprendi sobre a vida: escolhe e caminha não porque o caminho seja claro mas porque ficar parado é uma escolha e a tarde não espera quando a noite vier direi que tomei a trilha certa ou que apenas tomei uma trilha - e foi quanto baste

os dinossauros

os dinossauros não vieram com escamas vieram de camisa aberta e gravata barata acordam às seis  cagam às seis e quinze apanham o metro às seis e quarenta há café queimado há chefes piores há espelhos que sempre mentem melhor do que qualquer amante os dinossauros usam cartões de crédito sorriem quando querem esmurrar alguém aprendem que a oportunidade significa trabalhar até a coluna esvair-se em pó as mulheres bebem whisky barato os homens fingem entender de política todos fingem não terem medo de morrer exactamente igual ao vizinho os jornais vendem o medo em promoção as igrejas vendem a palavra eternidade os bares vendem o nirvana do instante alguém olha para as contas da casa verificando que não foi um asteróide que matou os dinossauros e grita: - "Não se paga! Não se paga!" foi o login no trabalho  foi a prestação do carro foi a prestação da casa foi a esperança  que morreu  devagar no apartamento  com vista para outro apartamento e amanhã ...

sílaba a sílaba

Homenagem a Cummings o poema ​v    a        I ​(c a i n d o) ​silenciosa mente (sílaba a sílaba)no mundo da cor ​ se o vento(esse velho impostor)soprar segredos na BOCA das árvores ​ estaremos (rindo) n o  ou  tro  la  do do mundo ​com mãoscheias de nada &nenhum ponto final

a regra d'ouro

Primeiro, declara-se a guerra. Não em voz alta - em reuniões discretas, com café quente e gráficos claros. Depois, explica-se ao povo que é pelo bem comum. O bem, claro,  já está definido por investidores & accionistas. Os pobres oferecem os corpos, os ricos oferecem opiniões. Uns perdem pernas, outros ganham contratos. A bomba cai democraticamente, mas a conta sobe em exclusivo. Há quem morra anónimo, há quem assine em dourado. Chamam “sacrifício” ao que jamais sacrificariam. Chamam "defesa" ou "ataque preventivo"  quando iniciam ofensiva. Chamam “inevitável”  a tudo o que é lucrativo. Quando tudo arde, aparecem salvadores com capacete novo e facturas antigas. Reconstrói-se o país, não a justiça. Enterram-se os mortos, não os responsáveis. E no fim, se alguém perguntar “porquê?”, responde-se com seriedade: - porque funciona.

eclipse

  Para Edmond Jabès O eclipse não dramatiza a sombra: observa-a  a trabalhar. O escuro não vem como punição, mas como forma provisória de leitura. A mão que cobre o rosto inaugura um saber antigo: ver menos para ver melhor. O divino como um livro ilegível de tanto ter sido tocado pelo fogo. O eclipse é isso: um acordo silencioso para que o instante por um segundo exacto saiba que é dono de si. Escrever torna-se navegação às cegas, registo do abalo, e não da rota. Entre partida e regresso, o poema aceita a sua condição de bordo instável. Nada se fixa, tudo se anota. Todo o livro é um livro de bordo . Toda a leitura, uma travessia. E quando se fecha o rosto com a mão, não é sombra: é o eclipse a ensaiar, em nós, a sua lenta, perfeita caligrafia.

poesia

Para Marianne Moore A mim também não me agrada - disse, com a franqueza de quem não pede licença à reverência. A poesia começa aí: nesse ligeiro encolher de ombros, no desajuste entre expectativa e respiração. Lemo-la com perfeito desprezo - como quem entra num quarto apenas para confirmar que nada ali lhe pertence. E, no entanto, algo insiste: entre sílabas mal iluminadas, entre uma imagem que falha e outra que se repete, descobre-se afinal um lugar para o genuíno . Não o genuíno polido, nem o que sabe posar para retrato, mas esse que tropeça, que fala baixo, que chega atrasado à própria frase, sabendo que a poesia não promete  conforto, entrega restos: ossos limpos de emoção fácil, ritmos que não pedem aplauso, palavras sem vocação para slogan. E aí,  no atrito entre desprezo e atenção, algo respira: uma coisa pequena, obstinada, indiferente ao gosto, imune à moda. Chamamos-lhe poesia por falta de melhor nome, mas ela prefere existir como alguém que n...

Anjo

“Todo o Anjo é terrível”, disse, e eu acrescento: tão terrível que aprisiona ao Lugar. António Barahona Não ao lugar geográfico - não à rua, nem à casa, nem ao nome da cidade - mas a esse ponto fixo onde a alma fica suspensa como um prego de luz. O anjo não empurra: detém. Não fere: imobiliza com claridade excessiva. Terrível porque mostra a forma exacta do nosso medo, o contorno nítido do desejo, a pergunta sem portas. Onde o anjo passa, o tempo perde mobilidade como quem foi visto por dentro. O Lugar é esse: o sítio onde já não somos metáfora, onde a linguagem deixa de proteger, onde o silêncio tem peso específico. Por isso trememos. Não porque o anjo venha do alto, mas porque nos fixa - como um espelho que decide lembrar-se de nós. E assim permanecemos: O anjo não fecha a porta. Aprende connosco a falha. Aprisiona ao Lugar como quem ensina a respirar dentro  da pedra, como quem diz: fica - não para obedecer, mas para escutar o que ainda falha o no...

chama

Para Al Berto Se conseguires entrar em casa e o ar tiver a espessura do presságio, não recues. A porta pode ranger como se abrisse a boca de um século, e ainda assim — entra. Talvez alguém esteja em fogo na tua cama . Não um corpo a arder, mas uma memória acesa, uma figura feita de brasas antigas, ardendo sem consumir os lençóis. O incêndio não é destruição: é visita. A madeira do soalho começará a brilhar como cera derretida, e na sua superfície verás desenhar-se a sombra de uma cidade que nunca habitaste. Ruas que não pisaste, varandas onde ninguém te chamou pelo nome - e, no entanto, tudo te pertence. Do tecto cairá uma chuva miudinha, contínua, cintilante, como se as estrelas tivessem escolhido a tua sala para desabar em silêncio. Não te assustes. Há clarões que não queimam; apenas iluminam o que estava esquecido. São os teus antepassados . Levantaram-se por um instante da longa inércia dos séculos , sacudindo o pó do tempo como quem ajeita um casaco antigo. Vêm sem passos, vêm...

pássaro

Para José Gomes Ferreira Nunca encontrei um pássaro morto na floresta . Caminhei como quem procura uma prova — não da morte, mas do seu peso. A manhã abria-se húmida, com aquele silêncio verde que parece respirar antes de nós. Afastei ramos, inclinei-me sobre musgos, espiei entre raízes que guardam segredos com a paciência dos séculos. Em vão . Nem uma pena desordenada, nem um corpo mínimo entregue à gravidade. A floresta devolvia-me apenas o rumor das folhas, como se dissesse: aqui nada termina, tudo começa. Procurei um cadáver pequenino que desse o sangue às flores , que ensinasse às pétalas o verbo vermelho. Imaginei as asas desfeitas, ofertadas às folhas secas como mapas de um voo interrompido. Mas as flores mantinham o seu rubor intacto, as folhas continuavam a cair por conta própria, sem empréstimos do céu. Talvez a morte, ali, seja uma invenção humana — um hábito de medir ausências. Houve um momento em que parei. O sol atravessava as copas como uma água dourada, e percebi q...

vício

A poesia é uma droga barata, das que se enrolam num guardanapo manchado de tinta & letras  que esperam por ti na mesa gordurosa de um café  há décadas. Entras sóbrio. sais com palavras a tropeçar-te  nos dentes. Foi o que me aconteceu numa noite qualquer depois do terceiro verso (ou do quarto - a matemática nunca foi grande coisa quando a solidão começa a falar alto). li duas linhas do poema e pensei: isto é somente sujidade  organizada. mas não era. era uma agulha invisível a furar-me o silêncio. desde então a poesia mete-se comigo como uma amante que não paga  a renda  e nunca sai do quarto. acordo com frases ressacadas, durmo com metáforas por lavar. o frigorífico está vazio mas o caderno está cheio - e isso não paga                       as contas da casa. dizem que é vício. dizem que é fuga. dizem que devia arranjar  um trabalho a sério. já tentei. mas nenhuma ...