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chama

Para Al Berto Se conseguires entrar em casa e o ar tiver a espessura do presságio, não recues. A porta pode ranger como se abrisse a boca de um século, e ainda assim — entra. Talvez alguém esteja em fogo na tua cama . Não um corpo a arder, mas uma memória acesa, uma figura feita de brasas antigas, ardendo sem consumir os lençóis. O incêndio não é destruição: é visita. A madeira do soalho começará a brilhar como cera derretida, e na sua superfície verás desenhar-se a sombra de uma cidade que nunca habitaste. Ruas que não pisaste, varandas onde ninguém te chamou pelo nome - e, no entanto, tudo te pertence. Do tecto cairá uma chuva miudinha, contínua, cintilante, como se as estrelas tivessem escolhido a tua sala para desabar em silêncio. Não te assustes. Há clarões que não queimam; apenas iluminam o que estava esquecido. São os teus antepassados . Levantaram-se por um instante da longa inércia dos séculos , sacudindo o pó do tempo como quem ajeita um casaco antigo. Vêm sem passos, vêm...

pássaro

Para José Gomes Ferreira Nunca encontrei um pássaro morto na floresta . Caminhei como quem procura uma prova — não da morte, mas do seu peso. A manhã abria-se húmida, com aquele silêncio verde que parece respirar antes de nós. Afastei ramos, inclinei-me sobre musgos, espiei entre raízes que guardam segredos com a paciência dos séculos. Em vão . Nem uma pena desordenada, nem um corpo mínimo entregue à gravidade. A floresta devolvia-me apenas o rumor das folhas, como se dissesse: aqui nada termina, tudo começa. Procurei um cadáver pequenino que desse o sangue às flores , que ensinasse às pétalas o verbo vermelho. Imaginei as asas desfeitas, ofertadas às folhas secas como mapas de um voo interrompido. Mas as flores mantinham o seu rubor intacto, as folhas continuavam a cair por conta própria, sem empréstimos do céu. Talvez a morte, ali, seja uma invenção humana — um hábito de medir ausências. Houve um momento em que parei. O sol atravessava as copas como uma água dourada, e percebi q...

vício

A poesia é uma droga barata, das que se enrolam num guardanapo manchado de tinta & letras  que esperam por ti na mesa gordurosa de um café  há décadas. Entras sóbrio. sais com palavras a tropeçar-te  nos dentes. Foi o que me aconteceu numa noite qualquer depois do terceiro verso (ou do quarto - a matemática nunca foi grande coisa quando a solidão começa a falar alto). li duas linhas do poema e pensei: isto é somente sujidade  organizada. mas não era. era uma agulha invisível a furar-me o silêncio. desde então a poesia mete-se comigo como uma amante que não paga  a renda  e nunca sai do quarto. acordo com frases ressacadas, durmo com metáforas por lavar. o frigorífico está vazio mas o caderno está cheio - e isso não paga                       as contas da casa. dizem que é vício. dizem que é fuga. dizem que devia arranjar  um trabalho a sério. já tentei. mas nenhuma ...

peça a peça

Dizem-nos: das trevas fez-se luz. E houve uma manhã - talvez.   Mas a manhã não nos pertenceu.       Falaram-nos de uma luz inteira, como se a inteireza fosse possível num século de espelhos rachados. Assim pensámos. Assim nos ensinaram a pensar    entre anúncios luminosos e ruínas de ossos discretos. Mas quando a luz nasceu (se nasceu:  fragmentou-se): não em constelações sublimes,        mas em lâmpadas de tecto   de corredores administrativos. Basta olhar para o céu:  as trevas   continuam.  Não como ausência, mas como afirmação do método. Medem a dança das luzes com a paciência mineral das eras. (outrora chamámos a isso destino). Outrora como agora, marionetas  no  carrossel do jogo.  A música é alegre  ( convém que seja): quem dança não pergunta           qual personagem roda a manivela.    Agora chamamos equilíbrio instável ao copo ...

trovão

Para Emily Dickinson They shut me up in Prose – como quem fecha a janela para que o vento não desarrume as gavetas do mundo deram-me uma cadeira direita um nome alinhado um dia útil e disseram: respira baixo They shut me up in Prose – como se a alma fosse um pássaro inconveniente a bater asas na biblioteca mediram-me o pulso com régua escolar ensinaram-me a caligrafia  do sossego a gramática da cerca mas o pensamento - esse visitante clandestino  saltava muros invisíveis e escrevia nos intervalos quando eu era ainda uma sílaba indomada um relâmpago a aprender o seu próprio clarão They shut me up in Prose – disseram que a lucidez usa sapatos discretos e não voa nos telhados da infância ah, mas dentro do crânio uma abelha insistia no mel das perguntas e cada palavra que me cosiam à boca abria-se por dentro como uma flor subterrânea They shut me up in Prose – e eu respondi com versos que não cabiam no envelope habitual porque há quem pense que o...

silêncio

Hark! No whisper mars The utter silence of the untranslated stars. (e. e. Cummings in Summer Silence , 1913) ninguém (salvo quase) escuta como o nada se inclina porque o mundo é pequeno demais para tanto silêncio e grande demais para caber numa frase eu que sou apenas ninguém com os dedos que escrevem aprendi isto: que as estrelas não existem existem-se               introduzindo o silêncio                     absoluto dentro do silêncio (assim como tu entras em mim sem som) escuta: o universo desaprende o ruído escuta! nenhum rumor abisma o silêncio absoluto das intraduzíveis estrelas                          e o coração - essa frágil pontuação               sem precisão  vai batendo            ...

os objectos

os objectos erguem-se - parentes distantes com mãos de vidro - aproximam-se de nós com a delicadeza de quem aprendeu a nossa linguagem escutando atrás das paredes, atrás do sangue, e dão à luz o espanto directamente na concha da boca. competem entre si pela primazia da nossa solidão: a chávena reclama o primeiro frio, a cadeira o peso das nossas perguntas, o relógio o nervo impaciente de sermos ainda matéria. são criaturas modestas,  nunca exigem  a voracidade de estar vivo, contentam-se com a exactidão do pó, com a honra quase vegetal de permanecer. únicos, dizem,  fora e dentro de nós, como se tivéssemos dois corpos e um fosse feito de chaves que não abrem coisa alguma. não interrogam a própria existência, não levantam assembleias de culpa, e no entanto vigiam-nos com a paciência de uma mãe que sabe o nome secreto do filho. ignoram que são,  em si mesmos, a nossa mesma consciência: pequenos espelhos práticos onde a alma vem experimenta...

susto

Aos amantes que esperam como quem mexe o café  com uma estrela anã que tarda em morrer. digo baixinho que as janelas vedadas têm orifícios do tamanho do nosso medo e por eles passa um cavalo feito de horas perdemos nomes ganhamos ferrugem e um relógio ri-se com dentes de ouro há feitiços falidos - sim pendurados como casacos cansados promessas com letras a coxear pelo passeio serpentino da língua e a solidão veste um fato largo o desejo fuma à porta do cinema à porta selada de jogo clandestino a sorte penteia o cabelo ao contrário onde há uma bela ginástica de ossos não procurem a noite como quem procura um interruptor  a noite é um gato eriçado um erro de ortografia  um bolso sem fundo fiquemos com a lição de aprender a cair para cima a escrever o mundo sem levantar o lápis do susto

solução da noite

Aos amigos que esperam encontrar-na solução da noite  como quem procura moedas debaixo da língua elétrica da cidade,  digo-vos: o sulfato dos dias é um cão a morder a própria sombra, e nós atiramos-lhe ossos chamados segunda-feira, chamados salário, chamados paciência com desconto. nas janelas vedadas respiram insectos burocráticos, orifícios por onde espreita o olho cansado dos impérios, e nos cruzamentos do tempo e do lugar,  um polícia  invisível multa-nos o coração por excesso de sonho. vi feitiços falidos a boiar no Tejo de plástico, promessas em MAIÚSCULAS a vender aspiradores metafísicos,  letras tortas,  colunas de um templo bêbado onde os profetas  dormem com a boca cheia de recibos. digo-vos, ó amigos de todos os tempos, a solidão tem um megafone rachado o desejo toca saxofone nas costelas da noite, no salão de jogo a esperança perde os sapatos enquanto revólveres jogam à roleta russa. há sempre uma forma de dizer não vestida a r...

devoção

Para Sylvia Plath lâmina doméstica  a arder por dentro. O pássaro precisa de aprender a voar como quem aprende a usar uma faca na cozinha demasiado branca da manhã. Tudo brilha com dentes: o copo, o relógio, a boca da mãe. Nasceu com um coração de relógio partido, tic-tac de sangue contra a gaiola das costelas. Dizem-lhe: tenta outra vez, o céu é um prato limpo. Mas o céu tem nódoas que não saem. Treina no quintal das coisas úteis: o balde, a corda, a camisa a secar como um fantasma dócil. Cada impulso é uma carta sem selo endereçada a um deus com auscultadores. O pássaro precisa de aprender a voar e o mundo oferece manuais de boas maneiras: não grites, não sangres, sorri com a boca fechada como as bonecas que sabem morrer. Debaixo das penas mora uma casa em chamas. As paredes perguntam pelo jantar, o espelho penteia-lhe o medo com dedos de enfermeira cansada. Há sempre alguém a medir-lhe a sombra. Então cresce um centímetro - o bastante para ouvir os si...