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trovão

Para Emily Dickinson They shut me up in Prose – como quem fecha a janela para que o vento não desarrume as gavetas do mundo deram-me uma cadeira direita um nome alinhado um dia útil e disseram: respira baixo They shut me up in Prose – como se a alma fosse um pássaro inconveniente a bater asas na biblioteca mediram-me o pulso com régua escolar ensinaram-me a caligrafia  do sossego a gramática da cerca mas o pensamento - esse visitante clandestino  saltava muros invisíveis e escrevia nos intervalos quando eu era ainda uma sílaba indomada um relâmpago a aprender o seu próprio clarão They shut me up in Prose – disseram que a lucidez usa sapatos discretos e não voa nos telhados da infância ah, mas dentro do crânio uma abelha insistia no mel das perguntas e cada palavra que me cosiam à boca abria-se por dentro como uma flor subterrânea They shut me up in Prose – e eu respondi com versos que não cabiam no envelope habitual porque há quem pense que o...

silêncio

Hark! No whisper mars The utter silence of the untranslated stars. (e. e. Cummings in Summer Silence , 1913) ninguém (salvo quase) escuta como o nada se inclina porque o mundo é pequeno demais para tanto silêncio e grande demais para caber numa frase eu que sou apenas ninguém com os dedos que escrevem aprendi isto: que as estrelas não existem existem-se               introduzindo o silêncio                     absoluto dentro do silêncio (assim como tu entras em mim sem som) escuta: o universo desaprende o ruído escuta! nenhum rumor abisma o silêncio absoluto das intraduzíveis estrelas                          e o coração - essa frágil pontuação               sem precisão  vai batendo            ...

os objectos

os objectos erguem-se - parentes distantes com mãos de vidro - aproximam-se de nós com a delicadeza de quem aprendeu a nossa linguagem escutando atrás das paredes, atrás do sangue, e dão à luz o espanto directamente na concha da boca. competem entre si pela primazia da nossa solidão: a chávena reclama o primeiro frio, a cadeira o peso das nossas perguntas, o relógio o nervo impaciente de sermos ainda matéria. são criaturas modestas,  nunca exigem  a voracidade de estar vivo, contentam-se com a exactidão do pó, com a honra quase vegetal de permanecer. únicos, dizem,  fora e dentro de nós, como se tivéssemos dois corpos e um fosse feito de chaves que não abrem coisa alguma. não interrogam a própria existência, não levantam assembleias de culpa, e no entanto vigiam-nos com a paciência de uma mãe que sabe o nome secreto do filho. ignoram que são,  em si mesmos, a nossa mesma consciência: pequenos espelhos práticos onde a alma vem experimenta...

susto

Aos amantes que esperam como quem mexe o café  com uma estrela anã que tarda em morrer. digo baixinho que as janelas vedadas têm orifícios do tamanho do nosso medo e por eles passa um cavalo feito de horas perdemos nomes ganhamos ferrugem e um relógio ri-se com dentes de ouro há feitiços falidos - sim pendurados como casacos cansados promessas com letras a coxear pelo passeio serpentino da língua e a solidão veste um fato largo o desejo fuma à porta do cinema à porta selada de jogo clandestino a sorte penteia o cabelo ao contrário onde há uma bela ginástica de ossos não procurem a noite como quem procura um interruptor  a noite é um gato eriçado um erro de ortografia  um bolso sem fundo fiquemos com a lição de aprender a cair para cima a escrever o mundo sem levantar o lápis do susto

solução da noite

Aos amigos que esperam encontrar-na solução da noite  como quem procura moedas debaixo da língua elétrica da cidade,  digo-vos: o sulfato dos dias é um cão a morder a própria sombra, e nós atiramos-lhe ossos chamados segunda-feira, chamados salário, chamados paciência com desconto. nas janelas vedadas respiram insectos burocráticos, orifícios por onde espreita o olho cansado dos impérios, e nos cruzamentos do tempo e do lugar,  um polícia  invisível multa-nos o coração por excesso de sonho. vi feitiços falidos a boiar no Tejo de plástico, promessas em MAIÚSCULAS a vender aspiradores metafísicos,  letras tortas,  colunas de um templo bêbado onde os profetas  dormem com a boca cheia de recibos. digo-vos, ó amigos de todos os tempos, a solidão tem um megafone rachado o desejo toca saxofone nas costelas da noite, no salão de jogo a esperança perde os sapatos enquanto revólveres jogam à roleta russa. há sempre uma forma de dizer não vestida a r...

devoção

Para Sylvia Plath lâmina doméstica  a arder por dentro. O pássaro precisa de aprender a voar como quem aprende a usar uma faca na cozinha demasiado branca da manhã. Tudo brilha com dentes: o copo, o relógio, a boca da mãe. Nasceu com um coração de relógio partido, tic-tac de sangue contra a gaiola das costelas. Dizem-lhe: tenta outra vez, o céu é um prato limpo. Mas o céu tem nódoas que não saem. Treina no quintal das coisas úteis: o balde, a corda, a camisa a secar como um fantasma dócil. Cada impulso é uma carta sem selo endereçada a um deus com auscultadores. O pássaro precisa de aprender a voar e o mundo oferece manuais de boas maneiras: não grites, não sangres, sorri com a boca fechada como as bonecas que sabem morrer. Debaixo das penas mora uma casa em chamas. As paredes perguntam pelo jantar, o espelho penteia-lhe o medo com dedos de enfermeira cansada. Há sempre alguém a medir-lhe a sombra. Então cresce um centímetro - o bastante para ouvir os si...

idiotamente

Esse jovem, já me informei,  é um caso muito difícil - disse a voz com hálito de café queimado por detrás do biombo. Um biombo: há sempre um biombo quando a cobardia decide  tirar uma licenciatura. Fiquei a interrogar-me sobre a sábia natureza de quem prevê futuros como quem aposta em cavalos coxos sem abandonar a cadeira. Profetas de secretária xadrezistas de peças  invisíveis, exercício  de pequenos poderes. Joguinhos, claro. De adultos mal resolvidos que nunca aprenderam  a perder n em a calar. Já não gasto saliva. A saliva é cara e os idiotas são uma raça abundante. Concluí:  um idiota. é mais um idiota a rodar alegremente no carrossel da idiotice, bilhete vitalício, música alta para não ouvir o protesto do  neurónio vazio. E lá vai ele, mais uma voltinha, mão no acelerador, olhos fechados, convencido de que manda no mundo porque controla a velocidade do vazio. Eu? Desci do carrossel. viajo sem bilhete, não falo atr...

os lusíadas

Lucros cantam melhor que as musas ou o evangelho segundo o lucro.  no princípio não estavam as gentes. estava o lucro. e o lucro viu o nome os lusíadas e disse: isto é bom para vender. camões não escreveu um livro. escreveu um rótulo antes do tempo. para que um tipo de fato branco charuto apagado nos lábios e um sorriso de contabilista pegasse no título e o pendurasse numa fábrica de enchidos. o erro dele foi pensar em homens. o acerto deles foi pensar em números. as gentes dão problemas: faltam, reclamam, morrem. o lucro não. o lucro não falta, não morre, não pergunta de onde vem a carne. há uma linha de produção onde o verso entra inteiro e sai moído. não sobra metáfora, só enchido de porco. as musas? de avental manchado enquanto a carne passa pela máquina como a pátria passa pela história: triturada, temperada, embalada no vácuo. camões, querias cantar homens maiores que o medo deram-te homens menores que o lucro. o épico agora vem fati...

o pó nos sapatos

Para Hilda Hilst que as palavras te acompanhem mesmo quando fingem silêncio.    Homens do nosso tempo não vos escrevo para embalar o sono. Escrevo com a luz acesa e a porta aberta - quem entra, assuma o pó nos sapatos. Falais de progresso, a boca cheia de estatísticas. Mas no prato há sempre o mesmo osso e alguém fica a roer o silêncio. Aprendestes a dizer  ordem como quem diz  amanhã . Uma palavra limpa, lavada em gabinetes, enquanto na rua se aprende a gramática da fome. Não vos falo de amor como quem vende perfumes. Amor aqui é um método rude: olhar de frente para o outro sem desviar os olhos. Homens do nosso tempo , construireis máquinas sencientes, mas haveis pedido aos homens que desaprendessem de sentir. Chamastes eficiência à pressa de esmagar perguntas. A poesia, dizeis, não serve. Serve pouco, muito pouco. Como uma lâmpada mal pendurada numa sala de interrogatórios: não resolve o caso, mas impede a escuridão completa. Sei bem: preferis versos obedientes, do...

fuzilamentos

Os Fuzilamentos de Goya (com lanternas na garganta da noite) A colina respira pólvora. Madrid inclina-se para ouvir o estalo breve do mundo a quebrar. Há um sino que não toca, há um relógio sem números - o tempo aprende ajoelhado. Alinham-se como frases interrompidas, homens com nomes guardados no bolso, cartas que nunca foram abertas, um pão que ainda morna na memória. A noite passa-lhes a mão pelo ombro e diz:  esquece. Ao centro, a lanterna. Não é luz, é um interrogatório. Ilumina a camisa branca como quem sublinha um erro fatal  no manuscrito da história. Braços abertos:  não é prece, é espanto que encontrou lugar. O pelotão é um plural sem rosto. Botas conjugam o verbo obedecer. Os olhos não aprendem a ver; aprendem a apagar a visão. Há uma geometria fria que mede a distância  entre o coração  e chama a isso ordem. No chão, o sangue ensaia uma nova caligrafia, vermelho que tenta dizer nós antes de se tornar silêncio. Um cão di...