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fuzilamentos

Os Fuzilamentos de Goya (com lanternas na garganta da noite) A colina respira pólvora. Madrid inclina-se para ouvir o estalo breve do mundo a quebrar. Há um sino que não toca, há um relógio sem números - o tempo aprende ajoelhado. Alinham-se como frases interrompidas, homens com nomes guardados no bolso, cartas que nunca foram abertas, um pão que ainda morna na memória. A noite passa-lhes a mão pelo ombro e diz:  esquece. Ao centro, a lanterna. Não é luz, é um interrogatório. Ilumina a camisa branca como quem sublinha um erro fatal  no manuscrito da história. Braços abertos:  não é prece, é espanto que encontrou lugar. O pelotão é um plural sem rosto. Botas conjugam o verbo obedecer. Os olhos não aprendem a ver; aprendem a apagar a visão. Há uma geometria fria que mede a distância  entre o coração  e chama a isso ordem. No chão, o sangue ensaia uma nova caligrafia, vermelho que tenta dizer nós antes de se tornar silêncio. Um cão di...

novíssimo

o novíssimo ano bate fu-     rioso a toda  porta errada um estrangeiro no metro     esse que ninguém notou mas lá está ele: persiste     nas promessas vulgares as cruas mãos gretadas     reinvidicando: EXISTO! a vida encara-o  de viés como sopro de cigarro  sem nunca erguer                         a cabeça anos? a vida não usa dedos     para   fazer con- tas (usa cicatrizes) a a vida não saber que dia é                   hoje     sabe quando dói sa- be quando goza     &falta  dinheiro qua- do sobra                   silêncio    todos tentam medi-la          - calendários brancos tinta & giz de plástico a vida escapa à aritmética aprendeu cedo... a brincar  a fórmula ex...

my friend

Diz-me, my friend, quem não se rende à tua poesia? Digo-te, my friend : não se rende quem ainda escuta. a poesia não aceita rendições - apenas pactos secretos não se rende quem aprende a respirar dentro da palavra não se rende quem cai e transforma a queda em sílaba há quem entregue as armas há quem entregue o tempo mas a poesia fica fica como um animal ferido que recusa morrer fica como uma luz mínima num quarto sem janelas tentam domá-la com prémios com silêncios com a pressa do mundo ela ri - curta, irónica, imortal - não se rende porque não luta não se rende porque não obedece muda de forma entra pela margem infiltra-se na frase errada na vida mal vivida no coração cansado quando tudo pede desistir aí sussurra: fica e isso basta para que alguém - tu, talvez - continues não vencedor não salvo mas vivo atento enquanto houver um verso a resistir ninguém se rende

calendários

depois de amanhã serei outro - dizem os calendários com a boca cheia de datas - mas eu não quero ser outro há uma fadiga antiga em mudar de pele como quem troca de camisa para agradar ao espelho não sei quem sou e isso devia bastar como um passaporte em branco ou uma casa sem mobília onde o eco ainda aprende o meu nome quero ser tudo menos outro quero ser a hesitação antes do passo o erro que persiste a frase interrompida por falta de ar não por falta de sentido: a árvore que cresce torta porque a luz também erra o rio não alcança o mar e ainda inventa margens outro é sempre a versão corrigida a nota de rodapé passado que fui um futuro com aspas prefiro ficar no intervalo sem rosto onde posso falhar com elegância e existir sem tradução literal depois de amanhã só depois que o mundo mude se quiser fico a aprender aqui a nunca me substituir a ser tudo como fosse outra versão de nada 

Os pequeninos

A guerra dos pequeninos não é travada com espadas, mas com joelhos dobrados. Combatem de cabeça baixa, e chamam virtude àquilo que nasceu do medo. “Somos poucos, somos fracos” - e fazem disso um altar. A guerra dos pequeninos é a vitória do ressentimento vestido a rigor de moral. Cada um vigia o outro, para impedir as alturas. Quem se levanta é acusado de soberba, quem dança é suspeito. Preferem a igualdade pois não suportam a diferença, preferem a força bruta pois não suportam a justiça, preferem a morte pois desaprenderam o que é amar estar vivo. Mas atenção que esses a quem sempre chamaram pequeninos são também  um campo de batalha. Dentro de cada pequenino há uma centelha divina que ainda não foi domesticada, um impulso que pergunta - e se eu fosse algo mais?  Toda guerra termina quando alguém ousa perder gosto de vencer. Quando alguém diz "basta" a tudo o que mente para ser o que não é, a ilusão  perdida, de que o mundo glorifica  os ajo...

946 Poesia

Entre Marte e Júpiter há uma sílaba de pedra a repetir o seu nome em silêncio orbital. Não cai. Não foge. Demora. Quarenta quilómetros de metáfora a girar devagar - tão devagar que o tempo precisa de se sentar para o ver passar. Descoberto por um homem que olhava o céu como quem procura rimas perdidas, o asteroide aceitou seu nome, sem protestar. A sua órbita é elíptica - como o pensamento humano - aproxima-se, afasta-se, regressa sem nunca ser igual. Inclina-se apenas um grau e qualquer coisa, porque até os asteroides sabem que o excesso estraga o verso. Roda em cento e oito horas, uma rotação lenta como o poema que não quer acabar antes de ser maior que um nome. Não tem voz, escreve com gravidade. Não tem mãos, segura o Sol à distância exacta do sentido. Enquanto a Terra se apressa, a poesia insiste: há beleza no intervalo, há arte na repetição, há futuro em quem demora. E assim segue, entre destroços e estrelas, lembrando - com humor mineral e p...

animal eléctrico

cada dia se cala um punho de luz a queimar dentro silêncio não é fim animal eléctrico  a respirar fundo sangue das coisas corpos escritos o centro do nervo a trabalhar dentro cada dia se cumpre lavaredas de horas um rosto exaltado  a língua em brasa  os sons nascem antes da boca os gestos ardem antes do sentido (o dia irrompe  em sombra - ambrósia  da  matéria viva) cada dia  dentro do poema

in limine

teu olhar habita (fundo) o universo espelho sem medida (respira) a curva invisível do número in- finito seta que dispara sem condição (como sem saber  porquê) o piano move-se entre sombras - lenta combustão do teu peito onde  o enxofre aprende  a ser   ar ( respira o som) respira  (o som  em ti)

ciborgue

após a operação às cataratas o médico disse: as lentes são próteses d'alma transparências forjadas pelo forno da máquina na carne - vejo agora tudo                                &além tudo  (objectos deixaram de ser objectos) a  coisa em si  sumiu do léxico              da escola                    caminho ainda por entre                                          esses sinais entre falhas do sistema onde todas as linguagens falam entre si - porquê a palavra sonora quando o corpo se funde com um chip? olho uma cadeira... penso em voar.                (cadeiras deixaram de ser cadeiras     ...

a distância mais curta

Anatomias A distância mais curta entre nós é uma ferida limpa. Um corte que não sangra, mas pulsa, como um animal preso no escuro. Falo contigo como quem tenta não acordar um morto ou provocar um espelho. A tua ausência ganhou densidade: senta-te ao meu lado, respira por mim, toca os meus ombros com dedos de ar. Escrevo como quem tenta manter a própria pele: letra por letra, riscando a página como se fosse chão. Cada palavra, um fósforo. O modo simples de ver no escuro. Mulher com fósforos Não sou santa, nem sombra. Sou a mulher que segura fósforos num quarto onde tudo arde devagar. Aprendi a esperar sem tempo. Aprendi a acender uma luz sem luz. Os homens olham e pensam: ela vai incendiar tudo, mas já o fiz. Queimei nomes, camas, as palavras sonoras de dor. E não sobrou dor. Apenas o gosto a fumo na língua, e essa voz que diz: escreve, antes que tudo volte a silenciar. E então escrevo com fósforos entre os dedos, a cabeça acesa, como quem sopra vida na própria cinza. Relicário Há coisa...