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mundos paralelos

m.u.n.d.o.s. (paralelos // = a salvação) se_           f.a.r.t.o.s_ de (um)             P U F! (saltamos) 1⁰     2⁰         3⁰   (#dos olhos // #do medo // #do tempo que foge) p/ o u t r o         & o.ut.r.o             &&& (.. ) ∞→ :: ao n/gosto :: escolham → [porta] [realidade] [criação] o único            senão                     será o céu? (mas esse ri-se &diz: -  Nunca fui limite. ) F    Ô        L             E               G                  O                    ...

Homem-Megera

(luz baixa. cadeira no centro.  um  homem entra, senta-se devagar. respira. olha para o público. ) Sabem o que é ser bicho com cara de homem? Não? Pois eu sei. Chamam-me megera, mas só porque mordo antes de ser mordido. Porque não peço desculpa por existir. Ou porque existo de um modo que incomoda. Muito. (pausa. levanta-se, anda em círculos.) Fui aprendendo, sabem? Com os anos. Com os gritos. Com os silêncios. Aprendi que mostrar sentimento é convite ao tiro. Que chorar é abrir ferida numa sala cheia de predadores. Que amar… amar é um jogo com regra escondida. E perdi cedo. Muito cedo. (olha para o chão. depois ergue a cabeça. fala  com dureza .) Então vesti espinhos. Armei os olhos. Endureci as mãos. Fiz da voz um casaco grosso. Agora dizem: Tu és bruto . Tu és frio . Tu és o problema . Mas não estavam lá, pois não? Quando me ensinaram que um homem não treme. Um homem não quebra. Um homem engole. Um homem cala. Um homem manda. E ...

país rectângulo

sou um pigmeu               país rectângulo, desenhado a régua cega num teste de geografia errada a culpa? do miúdo, claro. ou da professora - quem sabe? que me ensinou a ser nação com letra minúscula sílaba torta, alfabeto impróprio, versão pirateada do latim, subtitulada em ressentimento sou um país em nota de rodapé vulgar nos gestos, épico nos jantares de tascas herdei memórias como quem herda louça lascada  com orgulho! diz o povo entre duas invejas e três novelas sou mapa de feriados, onde os miúdos pintam com lápis de cera e depois atiram o desenho pela janela quando chega o teste de matemática tenho hinos que ninguém sabe de cor, e estátuas que ninguém visita sou gloriosamente pequeno, especialista em saudade e medalha de ouro no campeonato europeu, profissional de desculpas históricas mas ainda assim, com um peito inchado e mesmo com ar reciclado, digo: Aqui ninguém manda! senão Bruxelas, o FMI & os merc...

cegueira

(luz baixa. um único foco. silêncio tenso. a voz entra crua, lenta, como quem mastiga palavras com os dentes partidos) VOZ (seca, directa) P enso que não cegámos . Não. (pausa) cegar exige uma tremenda disciplina. isto é pior. isto é - ver demais. ver até cegar por dentro. (luz estala. ruído de fundo. fragmentos de imagens proje c tadas: rostos, fogo, mar) VOZ (mais urgente) vemos. vemos tudo. vemos tanto que nada vemos. pupilas dilatadas de tédio. excesso. (batida seca. s ilêncio) VOZ (ritmada, crítica): passa um homem a arder. - deslizas o dedo. passa um corpo no mar. - clicas no écrã o ícon de um coração. passa a fome. o ódio. a guerra. as crianças decapitadas. um cão de pernas partidas. - partilhas. mas não vês. (a luz pisca. um eco atravessa a sala : "não vês, não vês, não vês…") VOZ (mais baixa, como um sussurro frio) vemos como quem respira fumo e chamamos-lhe ar. vemos com olhos intactos e corações exaustos. a retina torn...

hora de ponta

1.                 a multidão acolhe o céu aberto  contra o vidro    o tempo elástico encolhe     o silêncio & empurra       a pressa do mundo o rio não afaga           as suas margens 2.               a vida é o metro                  círculos lentos estações intensas    viagens sonoras          em pressa o corpo se apaga              no chão quebra o invisível             & assim cala a  meio a vida  3.         hora de ponta o sangue nos     ossos encovados os olhos        nos ombros  a língua pastosa a recitar horas     o tempo a mastigar sobras      olhare...

quimeras na bagagem

Para A. S. 1. O AMIGO partiste em silêncio como quem respeita  o peso das palavras      não houve adeus somente a ausência   tomando de um gole  seco inteira a casa  colecionavas quimeras não como quem  foge, mas como quem insiste   guardavas sonhos em cadernos gastos     papéis soltos menores do que silêncio     caixas em madeira cheirando a cinzas falavas de coisas desconhecidas para o mundo:       um peixe que voava reflectindo a lua     uma estrada que levava até a infância     um amor que não cobrava  passagem      enquanto todos reclamavam provas -      trabalhavas o malabarismo  do encanto:      curvas sem tempo pequenos gestos   agora que partiste - repouso  inquietas     as quimeras presas em meus bolsos não sei o que fazer com elas -  algumas    ainda serpenteiam pelas veias  out...

quanto baste

A deram-me um nome raso &tanso ficaram por aí. E o preço foi claro ter esses: - os trabalhos & os dias contados por o que estava agora a ocorrer. Crescer era esgravatar contra o tijolo gastar unha afiada B o nome não podia exceder pesos nunca podia ter salvo o homo sa- piens de arrotar cinza, o silêncio do génio na garrafa &ninharices C caminho ainda com nome & raiz &só as poeiradas  me conhecem causam coceira chata no sapato  &roteiros tão leves quanto baste

bric-à-brac

dizias - o bar estava aberto sem. vergonhas  enquanto os sábios & rotinas despertavam  lá fora & dentro ias emborcando pro.fecias promessas com um sabor amargo a vidros   amor era a mulher rindo distante o vestido barato tecendo o velho corpo de hábitos & hálitos e eu - quem diria - um cão vadio de aço &febre a latir a nomes sem calendário o som morria entre copos partidos a dança recolhia cacarias para quaisquer sucateiros embora sem conserto nem despedida. onde o sangue teimava em .ser. mel que se bebia o amor era a anedota do dia. dessas de que ninguém se lembra. & ri. sempre: - Vai rindo a dor é menor: - Quando o álcool bate forte nos olhos era assim quando. sabia. &dizias haver sempre crédito. sem débitos. na vida

Vésperas

1º acto   ao entrar p’la loja baptizada  como chique em meu bairro  ninguém falava de bombas a promocão das cuecas era o tema visceral da situação 2º acto       escolhi o par mais insignificante   estampado a pombas brancas                      sobrevoando céus  sem negrume ou silheta de inquie taç        ão 3ºacto        a  vendedora exibindo o bigode     disse algo sobre                          algodão macio                       mas eu pensava no aço    da morte  a mentira em linha recta                         dos poderosos   4ºacto  o tecido leve parecia...

Lisboa

Todas as      ruas conduzem ao Tejo, conduzem   a nada,   as pedras,  os sonhos,     um eco                     volante. Quem disse: Lisboa, Tejo e T udo ?   Paredes murmuram cada estória do mar,   o horizonte se fecha - o silêncio profano navega o vazio: - gaivotas traçam o grito    no céu, mapa jamais desenhado: - Paleta de humores, dias de sol e chuvas, roteiro d’almas em rasgo de tintas, um diário de uma cidade onde até o ar se torna ilusão cada vez que respira. Quem és Lisboa se não labirintos? Cada presente & passado   onde cada esquina é um lembrete de que, mesmo até ao Tejo, não se chega sem ter olhos bem abertos. Essa, a eterna viagem,  brisas ancestrais por essas ruas levam ao Tejo, as suas veias tecendo o ardil de nós mesmos, vozes na praça, marcas, passos, calçada...