Mensagens

autobiografia de ninguém

As pessoas queriam um perdedor que se tornasse um vencedor. Ou um vencedor que se tornasse um vencido. Mas um perdedor que continuasse a ser um perdedor? Isso era muito parecido com elas próprias. Não estavam interessadas em si mesmas. Charles Bukowski ficavam à espera de uma queda ou de um milagre como quem aposta num cavalo coxo ou num santo bêbado queriam a curva nunca a linha  recta um homem                        que subisse  com sangue nos dentes ou       descesse com estilo suficiente para ser citado mas não suportavam o tipo que ficava sentado no mesmo banco com o mesmo copo e a mesma história esse homem era perigoso o espectáculo                  mal iluminado não prometia  redenção                com digno  final   ninguém              ...

Grau 103⁰

Para Sylvia Plath A febre rasga-me em dois. Não há metáfora do corte Cada respiração um estilhaço,  cada gota de  suor uma confissão Sinto a carne soltar-se,  sem suavidade, e com pele arrancada a seco: a febre quer-me limpa,  quer-me branca,  quer-me vazia, quer-me sem nome O espelho rejeita a face, mostra-me a espada - uma lâmina piedosa Corta o supérfluo,  separa a luz - o exorcismo branco Há um ponto em que o calor se torna oração.  Ali, no centro do peito,  algo se abre - a ferida  aprende a cantar.  Ponto em que o calor se torna redenção   Ali, no centro do peito,  arde o que resta da culpa,  arde o que resta de mim Quando a febre finalmente cede, não volto a ser carne. Sou quase santa ou quase nada - um segredo sonoro regressa do próprio corpo. Cinza suspensa, o silêncio  a arder devagar - o nome que se escreve sozinho

a contrapartida secreta

O sentido é invisível mas o invisível não é contraditório do visível; o próprio visível tem uma organização interna invisível e o in-visível é a contrapartida secreta do visível. Merleau-Ponty , Working Notes (1959-1961) (dentro  do  que é  visto  entre  as vértebras                         de luz existe  uma ordem: cada traço nervo aresta guarda em si  a arquitectura das         sombras que moldam o real) visível é a margem & in-visível o rio que corre por baixo: o sentido não se vê m a s respira  não se deixa tocar pelas                        mãos        nem se oferece                  ao repouso do ol...

O Verbo Imóvel

Dizem-me: cresce. Como se fosse uma escada esquecida encostada  a uma parede. Como se dentro de mim houvesse degraus por inaugurar, como se a vida fosse uma sucessão de andares e eu, um inquilino atrasado. Mas não subo. Não desço. Não me desdobro em versões mais  aceitáveis de mim mesmo. Eu sou. É curioso, não é? Essa fome dos outros de me verem mudar. Tornar-me melhor, maior, mais qualquer coisa. Como se o presente fosse um rascunho e o futuro, essa promessa mal iluminada, o único lugar onde finalmente justificaria  a minha existência. Mas não sou um projecto. Não sou uma obra em andamento com andaimes  emocionais. Não há fita de inauguração no meu peito. Eu sou. Ser.. é  um verbo pesado, não porque exija esforço, mas porque recusa movimento. Ser não pede aplauso, não pede direcção. não pede sequer compreensão. Ser é esse instante bruto, sem antes nem depois, sem currículo, sem meta. E talvez seja isso que os inquieta. O meu desinteresse em...

o enigma

Descobrimos sempre o nosso mistério à custa da nossa inocência . (Robertson Davies, Fifth  Business, 1970) repito: descobrimos sempre o nosso mistério à custa da nossa inocência (e nem percebemos quando o primeiro rasgo separa o mundo) éramos inteiros antes da pergunta depois             fomos  o fragmento que pensa que saber é luz  mas a luz tem dentes mastiga devagar o espanto cada resposta pouco menor que o céu pouco maior que o chão e assim crescemos  caindo para dentro até que  a frase obscura seja o enigma que aprende a dizer eu

vertigem

Para Walt Whitman  Quando o astrónomo dissertava, o mundo tomou a forma de um cálculo. As estrelas, livres outrora, em respirações longínquas, foram empilhadas em prateleiras de supermercados, domesticadas por números como degraus enfileirados em escadas.  Sentava-me entre outros corpos inclinados na direcção da voz que dissecava o pulsar do eco das estrelas. O quadro branco em que escrevia, tornara-se um campo de batalha, onde a noite era traduzida em sinais e o mistério perdia a qualidade intraduzível. O aplauso final surgiu como uma confirmação de que se tratara a matéria do modo incorrigivelmente certo, de que o cosmos cabia inteiro na linguagem que soprava um alfabeto sem vertigem e qualquer súbito espanto. Mas dentro de mim algo começou a falhar como um instrumento desafinado perante uma pauta demasiado exacta. Um cansaço sem causa tomou conta dos meus ossos, uma espécie de febre silenciosa, como se o excesso de clareza me tivesse roubado o ar. Não o ar que pesava, mas...

o caderno escuro

Para Nika Turbina não sou eu,     dizes - quem escreve,          como se a mão fosse              um rumor do corpo,  o abismo apressado não sou eu,     dizes -       quem escuta,              o ouvido no pulso,  o verso  sem nome no caderno escuro não sou eu,     dizes -    quem faz       tremer os sonhos onde o chão líquido                    aprende  a cair  acordas - a noite intacta,      pesada, um animal deitado sobre    o peito Gritar? O grito esqueceu-            se    de ti    dizes - não há palavras  e logo depois há - mas quem encontra   letras num quarto submerso?                  e então es...

o vidro fino

No hables a menos que puedas mejorar el silencio. Jorge Luis Borges E o silêncio ergue-se como uma catedral  sem tecto,  uma arquitetura de ar onde  cada ausência respira.  Há nele um rumor  de mar antes da maré,  um quase dizer que  não se entrega.  As palavras chegam demasiado  vestidas,  calçam sapatos sobre o chão sagrado, tropeçam na pureza do instante,  deixam  migalhas  de intenção por onde passam. Falar é um risco calculado: tocar o vidro fino do mundo sem quebrar a sua transparência. Mas quem ousa medir o peso do silêncio que se deita entre dois pensamentos como um animal antigo que observa? Se disseres algo, que seja como água numa pedra quente: um gesto inevitável.

a deusa

ela não chega, condensa-se      nenhum passo, nenhuma heráldica, apenas a lenta insistência da maré contra o crânio      a palidez acumula-se à beira do pensamento, onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos      sente-a primeiro a subtracção: calor rarefeito, cor drenada, nomes escorregando como peixes  da  rede               para a boca depois começa a aritmética prateada: cresce, diminui, desaparece, regressa ela guarda a sua biblioteca na medula        cada mito uma vértebra,  cada amante    um fóssil de devoção  impresso na longa  paciência do seu corpo  os homens chamaram-lhe misericórdia  os homens chamaram-lhe perecimento       construíram altares a partir dos    seus erros, nomearam  esses ecos  uma  epifania mas ela não é dádiva nem fim   ela é a gramática da recorrência, a si...

mineral

Para Ruy Belo Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga, despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação. Ser apenas a substância que ao mundo se liga, sem peso de fôlego, mas com a força do chão. Minha suprema ambição é o repouso do granito, impassível presença que o tempo não consome, trocar esse grito humano, frágil e aflito, pela paz de quem não precisa de nome. Não volto à terra por castigo ou sorte adversa, mas pelo desejo que em mim longo se fez: ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera, passar a ser a voz da terra , de uma só vez. Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva e minha voz se funda em seu eco profundo, então serei mais do que alguma vez pude dizer, serei a própria voz que alimenta o mundo. Mais do que o verso escrito ou a fala passageira, vale a verdade do barro, a firmeza do cristal: a minha palavra final será poeira, a glória de ser, enfim, apenas mineral.