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O Verbo Imóvel

Dizem-me: cresce. Como se fosse uma escada esquecida encostada  a uma parede. Como se dentro de mim houvesse degraus por inaugurar, como se a vida fosse uma sucessão de andares e eu, um inquilino atrasado. Mas não subo. Não desço. Não me desdobro em versões mais  aceitáveis de mim mesmo. Eu sou. É curioso, não é? Essa fome dos outros de me verem mudar. Tornar-me melhor, maior, mais qualquer coisa. Como se o presente fosse um rascunho e o futuro, essa promessa mal iluminada, o único lugar onde finalmente justificaria  a minha existência. Mas não sou um projecto. Não sou uma obra em andamento com andaimes  emocionais. Não há fita de inauguração no meu peito. Eu sou. Ser.. é  um verbo pesado, não porque exija esforço, mas porque recusa movimento. Ser não pede aplauso, não pede direcção. não pede sequer compreensão. Ser é esse instante bruto, sem antes nem depois, sem currículo, sem meta. E talvez seja isso que os inquieta. O meu desinteresse em...

o enigma

Descobrimos sempre o nosso mistério à custa da nossa inocência . (Robertson Davies, Fifth  Business, 1970) repito: descobrimos sempre o nosso mistério à custa da nossa inocência (e nem percebemos quando o primeiro rasgo separa o mundo) éramos inteiros antes da pergunta depois             fomos  o fragmento que pensa que saber é luz  mas a luz tem dentes mastiga devagar o espanto cada resposta pouco menor que o céu pouco maior que o chão e assim crescemos  caindo para dentro até que  a frase obscura seja o enigma que aprende a dizer eu

vertigem

Para Walt Whitman  Quando o astrónomo dissertava, o mundo tomou a forma de um cálculo. As estrelas, livres outrora, em respirações longínquas, foram empilhadas em prateleiras de supermercados, domesticadas por números como degraus enfileirados em escadas.  Sentava-me entre outros corpos inclinados na direcção da voz que dissecava o pulsar do eco das estrelas. O quadro branco em que escrevia, tornara-se um campo de batalha, onde a noite era traduzida em sinais e o mistério perdia a qualidade intraduzível. O aplauso final surgiu como uma confirmação de que se tratara a matéria do modo incorrigivelmente certo, de que o cosmos cabia inteiro na linguagem que soprava um alfabeto sem vertigem e qualquer súbito espanto. Mas dentro de mim algo começou a falhar como um instrumento desafinado perante uma pauta demasiado exacta. Um cansaço sem causa tomou conta dos meus ossos, uma espécie de febre silenciosa, como se o excesso de clareza me tivesse roubado o ar. Não o ar que pesava, mas...

o caderno escuro

Para Nika Turbina não sou eu,     dizes - quem escreve,          como se a mão fosse              um rumor do corpo,  o abismo apressado não sou eu,     dizes -       quem escuta,              o ouvido no pulso,  o verso  sem nome no caderno escuro não sou eu,     dizes -    quem faz       tremer os sonhos onde o chão líquido                    aprende  a cair  acordas - a noite intacta,      pesada, um animal deitado sobre    o peito Gritar? O grito esqueceu-            se    de ti    dizes - não há palavras  e logo depois há - mas quem encontra   letras num quarto submerso?                  e então es...

o vidro fino

No hables a menos que puedas mejorar el silencio. Jorge Luis Borges E o silêncio ergue-se como uma catedral  sem tecto,  uma arquitetura de ar onde  cada ausência respira.  Há nele um rumor  de mar antes da maré,  um quase dizer que  não se entrega.  As palavras chegam demasiado  vestidas,  calçam sapatos sobre o chão sagrado, tropeçam na pureza do instante,  deixam  migalhas  de intenção por onde passam. Falar é um risco calculado: tocar o vidro fino do mundo sem quebrar a sua transparência. Mas quem ousa medir o peso do silêncio que se deita entre dois pensamentos como um animal antigo que observa? Se disseres algo, que seja como água numa pedra quente: um gesto inevitável.

a deusa

ela não chega, condensa-se      nenhum passo, nenhuma heráldica, apenas a lenta insistência da maré contra o crânio      a palidez acumula-se à beira do pensamento, onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos      sente-a primeiro a subtracção: calor rarefeito, cor drenada, nomes escorregando como peixes  da  rede               para a boca depois começa a aritmética prateada: cresce, diminui, desaparece, regressa ela guarda a sua biblioteca na medula        cada mito uma vértebra,  cada amante    um fóssil de devoção  impresso na longa  paciência do seu corpo  os homens chamaram-lhe misericórdia  os homens chamaram-lhe perecimento       construíram altares a partir dos    seus erros, nomearam  esses ecos  uma  epifania mas ela não é dádiva nem fim   ela é a gramática da recorrência, a si...

mineral

Para Ruy Belo Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga, despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação. Ser apenas a substância que ao mundo se liga, sem peso de fôlego, mas com a força do chão. Minha suprema ambição é o repouso do granito, impassível presença que o tempo não consome, trocar esse grito humano, frágil e aflito, pela paz de quem não precisa de nome. Não volto à terra por castigo ou sorte adversa, mas pelo desejo que em mim longo se fez: ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera, passar a ser a voz da terra , de uma só vez. Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva e minha voz se funda em seu eco profundo, então serei mais do que alguma vez pude dizer, serei a própria voz que alimenta o mundo. Mais do que o verso escrito ou a fala passageira, vale a verdade do barro, a firmeza do cristal: a minha palavra final será poeira, a glória de ser, enfim, apenas mineral.

genialidade

I met a genius on the train today about 6 years old, he sat beside me and as the train ran down along the coast we came to the ocean and then he looked at me and said, it's not pretty. it was the first time I'd realized that. Charles Bukowski  A besta de metal seguia em frente, um tremor familiar contra as solas dos meus sapatos gastos. A luz do sol, um amarelo barato, invadia o assento de vinil. E depois, a pequena interrupção. Presença silenciosa, uma súbita constelação de curiosidade ao meu lado. Seis anos, talvez, a sua idade, olhos que contemplavam a vastidão de um futuro ainda não escrito. Movemo-nos. A paisagem ficou turva, um borrão verde dando lugar ao hálito salgado e cortante da proximidade. E o oceano chegou. Não uma revelação súbita, mas um desenrolar lento e azul, quilómetro após quilómetro, o ritmo incansável da maré em conflito com a areia. Já o vira inúmeras vezes. Um cenário de postal ilustrado. Um silêncio azul. Algo a ser admirado, por dever. Também o obser...

a fala

A cada forma natural, rocha, fruto ou flor, Até mesmo às pedras soltas que cobrem a estrada, Dei uma vida moral: vi-as sentir, Ou liguei-as a algum sentimento: o grande todo Repousava numa alma que se alentava, e tudo Que contemplava respirava um sentido interior . William  Wordsworth, The  Prelude, 1850, Book III, 130-135 Não foi por capricho, mas porque o silêncio da terra parecia demasiado cheio para ser silêncio. Vi as pedras sentir a lassidão da montanha, como se ainda recordassem o peso das eras e a lenta queda do tempo. Nos frutos percebi uma paciência redonda, uma espera madura pelo instante exacto da queda. E as flores, frágeis pensamentos recém-nascidos, respiravam um segredo que o vento repetia. Assim liguei cada coisa a um fio de sentimento - não humano, talvez, mas irmão do que somos. E tudo o que observo - a poeira, o musgo, o caminho irregular - respira comigo  uma fala oculta. Como se o mundo inteiro falasse baixo para quem...

aplauso

POETA, não terás o aplauso popular! O louvor do êxtase passará a ruído momentâneo; O julgamento do tolo ouvirás, e o riso da fria multidão - Permanece calmo, firme, e — sóbrio! Alexander Pushkin, Poems , 1817 O poeta caminha lentamente até a boca do cena. Na mão direita, empunha um estilete como se fosse uma arma branca pronta a atacar. E inicia o seu monólogo:  Então, esperavas o quê? Flores? O estrondo de mil mãos batendo em uníssono até que os teus ouvidos sangrassem de glória? Esquece. Não haverá o aplauso popular. Entende de uma vez: a multidão é um monstro de mil cabeças que adora ser alimentado, mas nunca se sacia de ti. O que tu chamas de louvor, de êxtase... ah, isso é somente uma nuvem de fumaça. É o ruído momentâneo de uma engrenagem que te tritura e te cospe em seguida. Escuta... consegues ouvir? É o riso deles. Esse frio que corta a pele. O julgamento do tolo é uma sentença proferida antes mesmo de o teu verso tocar o chão. Riem porque não compreendem o peso d...