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o caderno escuro

Para Nika Turbina não sou eu,     dizes - quem escreve,          como se a mão fosse              um rumor do corpo,  o abismo apressado não sou eu,     dizes -       quem escuta,              o ouvido no pulso,  o verso  sem nome no caderno escuro não sou eu,     dizes -    quem faz       tremer os sonhos onde o chão líquido                    aprende  a cair  acordas - a noite intacta,      pesada, um animal deitado sobre    o peito Gritar? O grito esqueceu-            se    de ti    dizes - não há palavras  e logo depois há - mas quem encontra   letras num quarto submerso?                  e então es...

o vidro fino

No hables a menos que puedas mejorar el silencio. Jorge Luis Borges E o silêncio ergue-se como uma catedral  sem tecto,  uma arquitetura de ar onde  cada ausência respira.  Há nele um rumor  de mar antes da maré,  um quase dizer que  não se entrega.  As palavras chegam demasiado  vestidas,  calçam sapatos sobre o chão sagrado, tropeçam na pureza do instante,  deixam  migalhas  de intenção por onde passam. Falar é um risco calculado: tocar o vidro fino do mundo sem quebrar a sua transparência. Mas quem ousa medir o peso do silêncio que se deita entre dois pensamentos como um animal antigo que observa? Se disseres algo, que seja como água numa pedra quente: um gesto inevitável.

a deusa

ela não chega, condensa-se      nenhum passo, nenhuma heráldica, apenas a lenta insistência da maré contra o crânio      a palidez acumula-se à beira do pensamento, onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos      sente-a primeiro a subtracção: calor rarefeito, cor drenada, nomes escorregando como peixes  da  rede               para a boca depois começa a aritmética prateada: cresce, diminui, desaparece, regressa ela guarda a sua biblioteca na medula        cada mito uma vértebra,  cada amante    um fóssil de devoção  impresso na longa  paciência do seu corpo  os homens chamaram-lhe misericórdia  os homens chamaram-lhe perecimento       construíram altares a partir dos    seus erros, nomearam  esses ecos  uma  epifania mas ela não é dádiva nem fim   ela é a gramática da recorrência, a si...

mineral

Para Ruy Belo Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga, despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação. Ser apenas a substância que ao mundo se liga, sem peso de fôlego, mas com a força do chão. Minha suprema ambição é o repouso do granito, impassível presença que o tempo não consome, trocar esse grito humano, frágil e aflito, pela paz de quem não precisa de nome. Não volto à terra por castigo ou sorte adversa, mas pelo desejo que em mim longo se fez: ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera, passar a ser a voz da terra , de uma só vez. Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva e minha voz se funda em seu eco profundo, então serei mais do que alguma vez pude dizer, serei a própria voz que alimenta o mundo. Mais do que o verso escrito ou a fala passageira, vale a verdade do barro, a firmeza do cristal: a minha palavra final será poeira, a glória de ser, enfim, apenas mineral.

genialidade

I met a genius on the train today about 6 years old, he sat beside me and as the train ran down along the coast we came to the ocean and then he looked at me and said, it's not pretty. it was the first time I'd realized that. Charles Bukowski  A besta de metal seguia em frente, um tremor familiar contra as solas dos meus sapatos gastos. A luz do sol, um amarelo barato, invadia o assento de vinil. E depois, a pequena interrupção. Presença silenciosa, uma súbita constelação de curiosidade ao meu lado. Seis anos, talvez, a sua idade, olhos que contemplavam a vastidão de um futuro ainda não escrito. Movemo-nos. A paisagem ficou turva, um borrão verde dando lugar ao hálito salgado e cortante da proximidade. E o oceano chegou. Não uma revelação súbita, mas um desenrolar lento e azul, quilómetro após quilómetro, o ritmo incansável da maré em conflito com a areia. Já o vira inúmeras vezes. Um cenário de postal ilustrado. Um silêncio azul. Algo a ser admirado, por dever. Também o obser...

a fala

A cada forma natural, rocha, fruto ou flor, Até mesmo às pedras soltas que cobrem a estrada, Dei uma vida moral: vi-as sentir, Ou liguei-as a algum sentimento: o grande todo Repousava numa alma que se alentava, e tudo Que contemplava respirava um sentido interior . William  Wordsworth, The  Prelude, 1850, Book III, 130-135 Não foi por capricho, mas porque o silêncio da terra parecia demasiado cheio para ser silêncio. Vi as pedras sentir a lassidão da montanha, como se ainda recordassem o peso das eras e a lenta queda do tempo. Nos frutos percebi uma paciência redonda, uma espera madura pelo instante exacto da queda. E as flores, frágeis pensamentos recém-nascidos, respiravam um segredo que o vento repetia. Assim liguei cada coisa a um fio de sentimento - não humano, talvez, mas irmão do que somos. E tudo o que observo - a poeira, o musgo, o caminho irregular - respira comigo  uma fala oculta. Como se o mundo inteiro falasse baixo para quem...

aplauso

POETA, não terás o aplauso popular! O louvor do êxtase passará a ruído momentâneo; O julgamento do tolo ouvirás, e o riso da fria multidão - Permanece calmo, firme, e — sóbrio! Alexander Pushkin, Poems , 1817 O poeta caminha lentamente até a boca do cena. Na mão direita, empunha um estilete como se fosse uma arma branca pronta a atacar. E inicia o seu monólogo:  Então, esperavas o quê? Flores? O estrondo de mil mãos batendo em uníssono até que os teus ouvidos sangrassem de glória? Esquece. Não haverá o aplauso popular. Entende de uma vez: a multidão é um monstro de mil cabeças que adora ser alimentado, mas nunca se sacia de ti. O que tu chamas de louvor, de êxtase... ah, isso é somente uma nuvem de fumaça. É o ruído momentâneo de uma engrenagem que te tritura e te cospe em seguida. Escuta... consegues ouvir? É o riso deles. Esse frio que corta a pele. O julgamento do tolo é uma sentença proferida antes mesmo de o teu verso tocar o chão. Riem porque não compreendem o peso d...

os deuses

A noite ergue-se como uma lona velha  esticada sobre um mundo cansado. As estrelas torcem-se no alto, espirais  de luz numa imensa tenda que alguém  desenhou para vigiar os  que sonham. Porque ficam os deuses lá fora? Porque não atravessam a cortina como quem aceita o risco de ser apenas mais um na plateia? Será a pobreza da eternidade? Ou o truque de quem prefere observar sem pagar o preço da surpresa? Ou talvez temam  que lhes pintemos o rosto, lhes demos sapatos bicudos e gargalhadas demasiado humanas. Mas, se isso acontecesse, não era assim tão estranho -  os palhaços governaram desde sempre o circo. Então que desçam, que entrem sem pagar nem permissão. Aqui ninguém lhes pedirá contas. Só lhes pedimos uma coisa: não fiquem lá em cima a espreitar. Há números delicados em cena e os equilibristas caem  ao saber que são observados das estrelas. 

pontuação final

Para Laura Riding ​ A morte, que parece um simples verso , não exige métrica nem ensaio nem fôlego. É a gramática que se aprende sem esforço quando as mãos se cansam do mundo. ​ E, de todos os modos do saber , a única ciência que não exige estudo. Não há bibliotecas para o pó, nem teses sobre o vazio de um corpo - o exercício  de desaprender dos nomes e das cores. ​ Morto ou vivo, o mais fácil .    Viver é um ofício de esforço: o equilibrista tenso na corda do tempo, a des(re)construção diária de um rosto. A morte, que parece um simples verso é o instante em que a pontuação final se transforma em toda a frase escrita: a facilidade de ser apenas o que se é.

sabor

Para Frank O'Hara Merda na sopa, deixa-a queimar. Tudo está de volta. Nunca estarás mentalmente sóbrio. E talvez seja melhor assim. Porque a panela ferve mesmo quando ninguém está na cozinha, e o cheiro - meio carvão, meio memória - sobe pelas paredes como uma notícia que ninguém leu. Lembras-te de quando as manhãs eram apenas café e uma janela aberta? Agora há sempre qualquer coisa a arder no fundo do dia. Merda na sopa , sim - um erro, um gesto brusco, uma colher esquecida a rodar como um planeta pequeno no caldo do mundo. Tudo está de volta : a rua molhada, os nomes que disseste depressa demais, o riso de alguém numa mesa onde já não te sentas. E a cabeça, essa panela impossível, nunca desliga o lume. Nunca estarás mentalmente sóbrio . Há sempre um pensamento a fermentar, uma palavra atravessada, uma lembrança a borbulhar até saltar pela borda. Deixa a sopa queimar um pouco. Às vezes é o fundo escuro que tem realmente  sabor.