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mineral

Para Ruy Belo Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga, despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação. Ser apenas a substância que ao mundo se liga, sem peso de fôlego, mas com a força do chão. Minha suprema ambição é o repouso do granito, impassível presença que o tempo não consome, trocar esse grito humano, frágil e aflito, pela paz de quem não precisa de nome. Não volto à terra por castigo ou sorte adversa, mas pelo desejo que em mim longo se fez: ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera, passar a ser a voz da terra , de uma só vez. Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva e minha voz se funda em seu eco profundo, então serei mais do que alguma vez pude dizer, serei a própria voz que alimenta o mundo. Mais do que o verso escrito ou a fala passageira, vale a verdade do barro, a firmeza do cristal: a minha palavra final será poeira, a glória de ser, enfim, apenas mineral.

genialidade

I met a genius on the train today about 6 years old, he sat beside me and as the train ran down along the coast we came to the ocean and then he looked at me and said, it's not pretty. it was the first time I'd realized that. Charles Bukowski  A besta de metal seguia em frente, um tremor familiar contra as solas dos meus sapatos gastos. A luz do sol, um amarelo barato, invadia o assento de vinil. E depois, a pequena interrupção. Presença silenciosa, uma súbita constelação de curiosidade ao meu lado. Seis anos, talvez, a sua idade, olhos que contemplavam a vastidão de um futuro ainda não escrito. Movemo-nos. A paisagem ficou turva, um borrão verde dando lugar ao hálito salgado e cortante da proximidade. E o oceano chegou. Não uma revelação súbita, mas um desenrolar lento e azul, quilómetro após quilómetro, o ritmo incansável da maré em conflito com a areia. Já o vira inúmeras vezes. Um cenário de postal ilustrado. Um silêncio azul. Algo a ser admirado, por dever. Também o obser...

a fala

A cada forma natural, rocha, fruto ou flor, Até mesmo às pedras soltas que cobrem a estrada, Dei uma vida moral: vi-as sentir, Ou liguei-as a algum sentimento: o grande todo Repousava numa alma que se alentava, e tudo Que contemplava respirava um sentido interior . William  Wordsworth, The  Prelude, 1850, Book III, 130-135 Não foi por capricho, mas porque o silêncio da terra parecia demasiado cheio para ser silêncio. Vi as pedras sentir a lassidão da montanha, como se ainda recordassem o peso das eras e a lenta queda do tempo. Nos frutos percebi uma paciência redonda, uma espera madura pelo instante exacto da queda. E as flores, frágeis pensamentos recém-nascidos, respiravam um segredo que o vento repetia. Assim liguei cada coisa a um fio de sentimento - não humano, talvez, mas irmão do que somos. E tudo o que observo - a poeira, o musgo, o caminho irregular - respira comigo  uma fala oculta. Como se o mundo inteiro falasse baixo para quem...

aplauso

POETA, não terás o aplauso popular! O louvor do êxtase passará a ruído momentâneo; O julgamento do tolo ouvirás, e o riso da fria multidão - Permanece calmo, firme, e — sóbrio! Alexander Pushkin, Poems , 1817 O poeta caminha lentamente até a boca do cena. Na mão direita, empunha um estilete como se fosse uma arma branca pronta a atacar. E inicia o seu monólogo:  Então, esperavas o quê? Flores? O estrondo de mil mãos batendo em uníssono até que os teus ouvidos sangrassem de glória? Esquece. Não haverá o aplauso popular. Entende de uma vez: a multidão é um monstro de mil cabeças que adora ser alimentado, mas nunca se sacia de ti. O que tu chamas de louvor, de êxtase... ah, isso é somente uma nuvem de fumaça. É o ruído momentâneo de uma engrenagem que te tritura e te cospe em seguida. Escuta... consegues ouvir? É o riso deles. Esse frio que corta a pele. O julgamento do tolo é uma sentença proferida antes mesmo de o teu verso tocar o chão. Riem porque não compreendem o peso d...

os deuses

A noite ergue-se como uma lona velha  esticada sobre um mundo cansado. As estrelas torcem-se no alto, espirais  de luz numa imensa tenda que alguém  desenhou para vigiar os  que sonham. Porque ficam os deuses lá fora? Porque não atravessam a cortina como quem aceita o risco de ser apenas mais um na plateia? Será a pobreza da eternidade? Ou o truque de quem prefere observar sem pagar o preço da surpresa? Ou talvez temam  que lhes pintemos o rosto, lhes demos sapatos bicudos e gargalhadas demasiado humanas. Mas, se isso acontecesse, não era assim tão estranho -  os palhaços governaram desde sempre o circo. Então que desçam, que entrem sem pagar nem permissão. Aqui ninguém lhes pedirá contas. Só lhes pedimos uma coisa: não fiquem lá em cima a espreitar. Há números delicados em cena e os equilibristas caem  ao saber que são observados das estrelas. 

pontuação final

Para Laura Riding ​ A morte, que parece um simples verso , não exige métrica nem ensaio nem fôlego. É a gramática que se aprende sem esforço quando as mãos se cansam do mundo. ​ E, de todos os modos do saber , a única ciência que não exige estudo. Não há bibliotecas para o pó, nem teses sobre o vazio de um corpo - o exercício  de desaprender dos nomes e das cores. ​ Morto ou vivo, o mais fácil .    Viver é um ofício de esforço: o equilibrista tenso na corda do tempo, a des(re)construção diária de um rosto. A morte, que parece um simples verso é o instante em que a pontuação final se transforma em toda a frase escrita: a facilidade de ser apenas o que se é.

sabor

Para Frank O'Hara Merda na sopa, deixa-a queimar. Tudo está de volta. Nunca estarás mentalmente sóbrio. E talvez seja melhor assim. Porque a panela ferve mesmo quando ninguém está na cozinha, e o cheiro - meio carvão, meio memória - sobe pelas paredes como uma notícia que ninguém leu. Lembras-te de quando as manhãs eram apenas café e uma janela aberta? Agora há sempre qualquer coisa a arder no fundo do dia. Merda na sopa , sim - um erro, um gesto brusco, uma colher esquecida a rodar como um planeta pequeno no caldo do mundo. Tudo está de volta : a rua molhada, os nomes que disseste depressa demais, o riso de alguém numa mesa onde já não te sentas. E a cabeça, essa panela impossível, nunca desliga o lume. Nunca estarás mentalmente sóbrio . Há sempre um pensamento a fermentar, uma palavra atravessada, uma lembrança a borbulhar até saltar pela borda. Deixa a sopa queimar um pouco. Às vezes é o fundo escuro que tem realmente  sabor.

o navio de vidro

​ Para Claudia Emerson A memória é um gargalo estreito, um caminho de terra que termina  onde o sal começa. Quando era pequena , o mundo tinha  a segurança das coisas sólidas, até ao dia em que o carro parou diante do impensável. ​ Conduzimos apenas uma vez até ao oceano , uma incursão única num território  sem mapa. Imóvel no banco de trás, a criança  ​tinha medo desse tipo de água , não  a que se deixa medir por garrafas mas dessa massa azul - músculo  que se move s em intenção,  sem perdão,  ocupando o vácuo. O mar não era uma paisagem. Era uma anatomia que não conseguia nomear. ​E havia o peso desse horizonte , uma linha cortante que não prometia  nada além de si mesma. Um abismo horizontal que tentava fechar dentro do olhar como quem  tenta f orçar um navio de velas  abertas a entrar dentro                             de uma garrafa. ​O med...

recibo

supõem que me estão a inventar? um homem num quarto barato com o gosto metálico da noite supõem que me olho  no espelho?            O tipo que lá está  parece ter  perdido as suas guerras embora não se lembre - o café é fraco e lá fora passam carros buzinando  memórias como se soubessem  onde vão - o que é suspeito  (acendo um cigarro  imaginário os reais acabaram ontem  junto com  algumas  certezas  que fingia ter) supõem que me estão a inventar? a comédia alternativa seria  admitir  que o trabalho sério os bares  a mulher  desejável  tudo já  havia sido reescrito  num  guardanapo  amarrotado em algum bar onde o universo bebe                                  sozinho então invento mais um dia  mais  uma versão            ...

corpos escritos

Fazer amor em poesia não é deixar a marca de rimas  num lençol branco  ou procurar a metáfora perfeita para o teu flanco.  É um acto de desobediência contra o silêncio. É tirar a roupa das palavras até que elas fiquem nuas, trémulas, sem o casaco pesado dos dicionários ou a gravata apertada da sintaxe. É ler a tua pele como se fosse um manuscrito  descoberto numa cave  cheirando a café, jazz  e revolução  onde cada curva do teu corpo é um verso que o censor se esqueceu de apagar. Não precisamos de gramática para este momento. A nossa pontuação é o fôlego curto: um ponto final no umbigo, reticências que descem pelas vértebras, um ponto de exclamação no encontro das bocas. Estamos a imprimir uma edição clandestina de nós próprios, sem editores, sem revisores, sem medo de que o mundo lá fora não entenda a nossa métrica selvagem. Porque, no fim, meu amor, a melhor poesia não se lê com os olhos: escreve-se com o peso do corpo.