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946 Poesia

Entre Marte e Júpiter há uma sílaba de pedra a repetir o seu nome em silêncio orbital. Não cai. Não foge. Demora. Quarenta quilómetros de metáfora a girar devagar - tão devagar que o tempo precisa de se sentar para o ver passar. Descoberto por um homem que olhava o céu como quem procura rimas perdidas, o asteroide aceitou seu nome, sem protestar. A sua órbita é elíptica - como o pensamento humano - aproxima-se, afasta-se, regressa sem nunca ser igual. Inclina-se apenas um grau e qualquer coisa, porque até os asteroides sabem que o excesso estraga o verso. Roda em cento e oito horas, uma rotação lenta como o poema que não quer acabar antes de ser maior que um nome. Não tem voz, escreve com gravidade. Não tem mãos, segura o Sol à distância exacta do sentido. Enquanto a Terra se apressa, a poesia insiste: há beleza no intervalo, há arte na repetição, há futuro em quem demora. E assim segue, entre destroços e estrelas, lembrando - com humor mineral e p...

animal eléctrico

cada dia se cala um punho de luz a queimar dentro silêncio não é fim animal eléctrico  a respirar fundo sangue das coisas corpos escritos o centro do nervo a trabalhar dentro cada dia se cumpre lavaredas de horas um rosto exaltado  a língua em brasa  os sons nascem antes da boca os gestos ardem antes do sentido (o dia irrompe  em sombra - ambrósia  da  matéria viva) cada dia  dentro do poema

in limine

teu olhar habita (fundo) o universo espelho sem medida (respira) a curva invisível do número in- finito seta que dispara sem condição (como sem saber  porquê) o piano move-se entre sombras - lenta combustão do teu peito onde  o enxofre aprende  a ser   ar ( respira o som) respira  (o som  em ti)

ciborgue

após a operação às cataratas o médico disse: as lentes são próteses d'alma transparências forjadas pelo forno da máquina na carne - vejo agora tudo                                &além tudo  (objectos deixaram de ser objectos) a  coisa em si  sumiu do léxico              da escola                    caminho ainda por entre                                          esses sinais entre falhas do sistema onde todas as linguagens falam entre si - porquê a palavra sonora quando o corpo se funde com um chip? olho uma cadeira... penso em voar.                (cadeiras deixaram de ser cadeiras     ...

a distância mais curta

Anatomias A distância mais curta entre nós é uma ferida limpa. Um corte que não sangra, mas pulsa, como um animal preso no escuro. Falo contigo como quem tenta não acordar um morto ou provocar um espelho. A tua ausência ganhou densidade: senta-te ao meu lado, respira por mim, toca os meus ombros com dedos de ar. Escrevo como quem tenta manter a própria pele: letra por letra, riscando a página como se fosse chão. Cada palavra, um fósforo. O modo simples de ver no escuro. Mulher com fósforos Não sou santa, nem sombra. Sou a mulher que segura fósforos num quarto onde tudo arde devagar. Aprendi a esperar sem tempo. Aprendi a acender uma luz sem luz. Os homens olham e pensam: ela vai incendiar tudo, mas já o fiz. Queimei nomes, camas, as palavras sonoras de dor. E não sobrou dor. Apenas o gosto a fumo na língua, e essa voz que diz: escreve, antes que tudo volte a silenciar. E então escrevo com fósforos entre os dedos, a cabeça acesa, como quem sopra vida na própria cinza. Relicário Há coisa...

a luz depois

Para P. J. C. M. em memória de tudo o que muda. a luz regressou                          depois sem peso         quando  os olhos rasgaram  por  mãos que                     não conheci era um       mundo diverso dos nomes      que  usava rosto cadeira  rua          árvore  sombras em água & o fundo não se movia nada mais era coisa                              nada mais era    ideia só  vibração  som antes      do  som  algo que  respondia     não com palavras mas com         o corpo  matéria luz carne       tudo isso & ainda o espaço  que expande negro    ...

mundos paralelos

m.u.n.d.o.s. (paralelos // = a salvação) se_           f.a.r.t.o.s_ de (um)             P U F! (saltamos) 1⁰     2⁰         3⁰   (#dos olhos // #do medo // #do tempo que foge) p/ o u t r o         & o.ut.r.o             &&& (.. ) ∞→ :: ao n/gosto :: escolham → [porta] [realidade] [criação] o único            senão                     será o céu? (mas esse ri-se &diz: -  Nunca fui limite. ) F    Ô        L             E               G                  O                    ...

Homem-Megera

(luz baixa. cadeira no centro.  um  homem entra, senta-se devagar. respira. olha para o público. ) Sabem o que é ser bicho com cara de homem? Não? Pois eu sei. Chamam-me megera, mas só porque mordo antes de ser mordido. Porque não peço desculpa por existir. Ou porque existo de um modo que incomoda. Muito. (pausa. levanta-se, anda em círculos.) Fui aprendendo, sabem? Com os anos. Com os gritos. Com os silêncios. Aprendi que mostrar sentimento é convite ao tiro. Que chorar é abrir ferida numa sala cheia de predadores. Que amar… amar é um jogo com regra escondida. E perdi cedo. Muito cedo. (olha para o chão. depois ergue a cabeça. fala  com dureza .) Então vesti espinhos. Armei os olhos. Endureci as mãos. Fiz da voz um casaco grosso. Agora dizem: Tu és bruto . Tu és frio . Tu és o problema . Mas não estavam lá, pois não? Quando me ensinaram que um homem não treme. Um homem não quebra. Um homem engole. Um homem cala. Um homem manda. E ...

país rectângulo

sou um pigmeu               país rectângulo, desenhado a régua cega num teste de geografia errada a culpa? do miúdo, claro. ou da professora - quem sabe? que me ensinou a ser nação com letra minúscula sílaba torta, alfabeto impróprio, versão pirateada do latim, subtitulada em ressentimento sou um país em nota de rodapé vulgar nos gestos, épico nos jantares de tascas herdei memórias como quem herda louça lascada  com orgulho! diz o povo entre duas invejas e três novelas sou mapa de feriados, onde os miúdos pintam com lápis de cera e depois atiram o desenho pela janela quando chega o teste de matemática tenho hinos que ninguém sabe de cor, e estátuas que ninguém visita sou gloriosamente pequeno, especialista em saudade e medalha de ouro no campeonato europeu, profissional de desculpas históricas mas ainda assim, com um peito inchado e mesmo com ar reciclado, digo: Aqui ninguém manda! senão Bruxelas, o FMI & os merc...

cegueira

(luz baixa. um único foco. silêncio tenso. a voz entra crua, lenta, como quem mastiga palavras com os dentes partidos) VOZ (seca, directa) P enso que não cegámos . Não. (pausa) cegar exige uma tremenda disciplina. isto é pior. isto é - ver demais. ver até cegar por dentro. (luz estala. ruído de fundo. fragmentos de imagens proje c tadas: rostos, fogo, mar) VOZ (mais urgente) vemos. vemos tudo. vemos tanto que nada vemos. pupilas dilatadas de tédio. excesso. (batida seca. s ilêncio) VOZ (ritmada, crítica): passa um homem a arder. - deslizas o dedo. passa um corpo no mar. - clicas no écrã o ícon de um coração. passa a fome. o ódio. a guerra. as crianças decapitadas. um cão de pernas partidas. - partilhas. mas não vês. (a luz pisca. um eco atravessa a sala : "não vês, não vês, não vês…") VOZ (mais baixa, como um sussurro frio) vemos como quem respira fumo e chamamos-lhe ar. vemos com olhos intactos e corações exaustos. a retina torn...