Mensagens

clareza

He who is too kind is often thought to be a fool; but the fool is he who mistakes kindness for a lack of insight. To see the world’s flaws and still offer a hand is the highest form of clarity. Nikos Kazantzakis Quem vê   não se ilude   sabe   e, sabendo,   não recua        a clareza não endurece   depura   a bondade não é erro,   é decisão   o insensato                         confunde ver   com julgar   mas há quem veja   e permaneça - a clareza é uma mão  que se abre                     contra o vento

papel de alumínio

We live in a fantasy world, a world of illusion. The great task in life is to find reality. Iris Murdoch Vivemos num mundo de fantasia, um mundo de ilusão e a natural vocação da vida é ser noiva da realidade.  Mas onde será que se esconde? Não atrás dos véus que tecemos à pressa, nem no fundo de um mapa que míticos ancestrais rasuraram de olhos semi-cerrados, bocas finas e dentadura encenada. Acordamos em salas com portadas cerradas, nas paredes contamos estrelas de papel de alumínio, chamando verdade ao eco ensaiado no teatro do espaço.  A tarefa é mais dura e simples: desaprender o nome das coisas para fazê-las de novo falar.  A realidade é esse instante em que a mão hesita antes de tocar a água, e a água já não é metáfora.

anestesia

Para Hank bebem o café morno e olham para a parede manchada como se fosse um quadro do louvre há um cheiro a mofo nas camisas um peso nos ombros a que chamam destino ou segunda-ou-terça-feira conheço de ginjeira o tipo: acordam com o despertador a gritar arrastam-se para empregos que odeiam para comprar o que não precisam e sentam-se à frente da tele-visão a comer comida made in plástico até o cérebro virar a açorda aguada as gentes estão tão habituadas a ter uma vida de merda que perderam a consciência do que é merda se lhes desses uma flor tentariam limpá-la com um pano sujo se lhes desses a liberdade pediam que lhes devolvesses as algemas  porque o metal frio é mais familiar do que o calor do sol ao meio-dia estão mergulhados até ao pescoço a sorrir para uma vastidão de selfies e enquanto o esgoto sobe já nem tapam o nariz o cheiro já não os incomoda agora é o perfume eleito da casa bebe mais um copo ó miúdo está quase a começar o próximo turno

casaco & gravata

Não entras duas vezes no mesmo corpo: o que era cais agora é naufrágio. A mão que ontem teceu promessas desaprendeu hoje a arte do tear. Cada um é uma rua que se fecha  e nunca se abre no mesmo lugar. O espelho mente quando jura permanência: o que vês é apenas um quase-de-ser-tudo, migalha de ontem migrando para outro nome. Ser alguém é ser vários fantasmas usando um único casaco & gravata Quando pensas que voltas para ti, de imediato és um estranho que visita as cinzas ainda quentes do teu fogo.

A Troca

Neither Christ nor Buddha nor Socrates wrote a book, for to do so is to exchange life for logical process. William Butler Yeats nem cristo nem buda nem sócrates       escreveram                              mas todos viveram  quem escreve cessa: a página  onde  o dedo não sangra  quem escreve é como fantasma de si mesmo: eu aqui             sentado traindo a vida          por estas pequenas escadas de tinta  (cada livro é uma troca:                          a vida sai a ordem entra)

palimpsesto

Para T. S. Eliot Só aqueles que se arriscam a ir longe demais - dizes - podem descobrir até onde se pode ir , como quem deixa cair uma moeda  num poço e escuta o eco  esperando que lhe devolva  em detalhe e com rigor a cartografia anotada. A cidade continua a respirar em fragmentos: luzes intermitentes,  vozes sem  acabar frases, elétricos rangendo memórias mal tratadas. E nós, com mãos ocupadas em pequenos medos úteis, medimos distâncias com réguas quebradas, traçamos limites no pó de coisas apagadas. Ir longe demais não é um gesto heróico. Antes é um desvio imperceptível, pegada que não pede abrigo ao chão. Há sempre um ponto onde o nome das coisas falha: o mar já não é infinito,  o corpo já não é casa, o tempo esquece a sua própria cronologia. E é aí nessa margem onde o sentido se dissolve como tinta em água turva,  que  algo  começa a falar  sem linguagem. Talvez nada se descubra. Talvez o longe seja um espelho atras...

Mutável

You won't find the same person twice, not even in the same person . Mahmoud Darwish não és     o mesmo (apesar     do nome) passas            por ti em letras que se soltam e te fazem          - outros - falhas            a curva (o carro            derrapa) & nesse erro         floresces

ego

estou cansado da pequena coroa que insistimos em polir ego          ego                 ego   uma sala de espelhos   a respirar demasiado  perto o meu o teu o de todos  fome miúda & ruidosa de ser um nome que ecoa mas escuta - a relva não se apresenta o céu não se impõe ambos são o que basta (& sussurro  mais alto que o desejo) talvez  possamos tentar ser quase nada & enfim silenciar o nome 

perfeição

perfeito então - há poemas que sabem quando param este ficou exactamente no ponto (quase nada e já é tudo)

o humor

O humor é a delicadeza do desespero. Boris Vian o humor é essa coisa pequena (que insiste) em acender luz no meio do des es pe ro como quem ri - quase nada - e tudo muda

devagar

amo o que chega devagar sem nome o tempo não rouba - despe o excesso solta em nós o que fica

Ressurreição

Para  Rumi         Já morri  tantas vezes         antes de  morrer:  no primeiro    abandono,  no primeiro beijo,   na palavra que roubei, no espelho que silenciei -     cada morte uma semente que ignorei.  Digam que alguém    me levou consigo      ao colher o fruto     que amadureceu. Ressurreição  não é  túmulo  aberto,                  sudário  dobrado.  É silêncio   depois do grito,  depois do nome, a luz: regresso  à  terra   sem pressa de ser árvore. (como  a cinza e a fénix,      o grão que apodrece       o pão que endurece).         Morro pela noite     como quem morre pela manhã.             Sou a criança que aprende ...

cinestesia

A noite não chegava: entrava. Empurrava a porta com a delicadeza de quem já conhece o caminho e deixava no ar um cheiro leve de terra molhada, como se viesse de um lugar onde chove por dentro. Costumava estar na sala quando isso acontecia, sentado na poltrona que rangia sempre que alguém se aproximava. Foi numa dessas noites que percebi que a solidão tinha aprendido a mover objectos. Primeiro, apagou a lâmpada do tecto com um sopro que não vinha de qualquer lado. Depois, acendeu a pequena luz da estante, aquela que nunca usava. A chama tremia como se respirasse. E eu, sem saber porquê, senti que era um gesto de atenção. A partir daí, as coisas começaram a acontecer devagar, como se o tempo tivesse decidido caminhar descalço. A sombra da cortina alongava-se até tocar os meus pés, e quando demasiado se aproximava, recolhia-se de novo, tímida. O relógio parava sempre à mesma hora,  como se os ponteiros já exaustos, desistissem de de ter forma e existir. E havia um canto da sala onde...

O Visitante

Um traço. Depois outro.  Entre eles,                       o intervalo onde tudo começa.  No fundo da noite,  uma perfil             sem nome  resolve-se dentro de mim.  Não fala. Não pede.  Move apenas ar.  O círculo incompleto  acende-se no escuro como se aguardasse  um gesto inpensável. De sua margem ergue      um sopro - sem luz ou sombra,  a vibração                não se deixa   ver. O  silêncio faz o espaço,  a própria ausência  sem sinal.     Quando desperto nada levo comigo  além de um                  vestígio:  esse ponto imóvel, o quarto a respirar.

a fenda do poente

Para Carmen Martín Gaite a pretexto do poema Certeza, (As rachas. Poesía reunida, 2023 ) Cercaram-me com pedras (esqueceram-se  do vento).     Ergueram muros  como  quem  veste  por hábito                   o silêncio (e me pudesse                              habituar).  Queriam que  o corpo se  tornasse mobília ,     o desejo renunciasse -                   a ter direcção.  Fico.  Nem um centímetro  de rebeldia  se atreve a  romper o chão.                           Fico. Mas não lhe pertenço.       Aprendi que limites são mapas: uma fenda  mínima, quase  erro -  onde  a luz insiste  em  não  obedecer (n ã...

o homem real

Para Paul Auster O espaço resume-se a isto: uma mesa, uma lâmpada, a máquina de escrever. Lá fora, o mundo é um ruído de estranhos, uma sucessão de coincidências sem nome.  Mas ao sentar-me, a geografia muda. Não há mapas para o que as teclas procuram. Cada batida é um passo num labirinto onde a saída não importa, mas a precisão do rasto. Sou o arquitecto de uma cidade de tinta, erguida no silêncio de um quarto fechado. Um homem que escreve para saber onde está, inventando o céu para não morrer sufocado pela métrica dos dias.  A liberdade não é um horizonte aberto. É o arco que vai do pensamento ao punho, a recusa de ser  uma sombra no asfalto: um homem que se escreve até se tornar real.

5 ai cus

1 agora: o tempo falha por excesso de si 2 presente nega-se a durar  e permanece 3 nenhum antes nenhum depois logo, tudo 4 instante: o que é inteiro fora do tempo 5 eterno: o saldo do tempo  que se contradiz

a medida exacta

To do the useful thing, to say the courageous thing, to contemplate the beautiful thing: that is enough for one man’s life. T. S. Eliot, The Use of Poetry and the Use of Criticism, 1933. O presente e o passado talvez residam somente no calo da mão que cultiva. Não no gesto heróico das estátuas que descansam na praça, mas antes no fazer a coisa útil : o conserto do muro, a distribuição do pão, a precisão do artesão que ignora o aplauso das galerias, como se a utilidade fosse uma forma de oração sem palavras. Depois, há o peso do ar nos pulmões,  necessidade de dizer a coisa corajosa . Não o grito do demagogo ou a fúria do mercado, mas a palavra que corta a névoa, dita no momento em que o silêncio seria mais confortável. Uma verdade seca, como um osso ao sol, que não se dobra à conveniência das sombras. E, no fim do corredor pleno de ecos: c ontemplar a coisa bela. Não a beleza que distrai, mas a que detém o brilho da luz sobre o vidro quebrado, o padrão oculto no movimento das á...

o fundo da chávena

acordei tarde ou cedo demais  dependendo  do lado esculpido                    da garrafa a cidade já estava  a tentar vender cedo o dia a cidade de dentes brancos opiniões recicladas em catálogos ambulantes de coisas que tentam ser compradas homens de gravata invisível  com cara de enterro mal pago empurram-se no metro  como se o inferno pagasse  o salário  uma mulher grita patética  ao telemóvel                         ninguém olha há regras a cumprir não se olha de frente para    o ridículo  dos outros a menos que dê lucro há quem acorde para correr  atrás do  sucesso e tropece na mesma pedra - o desespero de parecer interessante: publica frases que não entende fotografa comida que não saboreia vive vidas que não lhes pertencem tudo para ganhar  u m like esse pequeno  orgasmo  ...

cúmplices

A cobardia não grita em alvoroço, não fecha as portas com estrondo, não rasga o ar com botas. Senta-se. Espera. A cobardia veste roupa comum, tem mãos limpas, olhos baixos, e um silêncio muito bem educado. Dizem: Não é o momento . Dizem: Não fui eu . Dizem: Nada posso fazer . E assim se constrói um muro sem tijolos visíveis. Enquanto isso, alguém cai. E quem viu, ajusta o casaco, consulta o relógio, engole a palavra que poderia existir. A cobardia não precisa de armas. Basta-lhe o intervalo entre o que se sabe e o que se diz. Basta-lhe o pequeno acordo com o conforto, essa cadeira demasiado mole onde a consciência adormece. Mas há um detalhe incómodo: a cobardia nunca age sozinha. Multiplica-se em cada ombro encolhido, em cada riso deslocado, em cada porta que não se abre. E quando por fim perguntam: Quem deixou que isso acontecesse? a cobardia, discreta, abandona a sala.