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confissão

Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade. Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares, Vol. I, ed. 1982. Compreender é uma forma de possuir. E não quero pertencer nem sequer à inteligência de alguém. Ser compreendido é prostituir-se . É pôr a alma sobre a mesa e esperar que alguém diga: Ah! Conheço isto. (Não conhece). Ninguém conhece ninguém. Nem eu conheço o homem que sou quando estou sozinho. Prefiro ser tomado a sério como o que não sou . (Há nisso uma pureza). Que me julguem triste quando sou apenas cansado. Que me julguem sábio quando não passo de vazio. Que me julguem indiferente enquanto estou a sofrer. (Que errem). O erro dos outros é às vezes a única liberdade que nos deixam. Não quero a compreensão humana. Quero a sua decência. Que me ignorem naturalmente, sem ódio, sem curiosidade, sem aque...

limiar

  se atingires o limiar do sonho saberás que esse é o ponto de r e g r e s s o a noite t e chama pelo/ ferro  pela/ pedra  pelo/ nome onde os relógios (des) a  p  a  r  e  c  e  m e o corpo se d e s f a z em névoa caminhas em silêncio até ao topo na      vertigem do do       último                      degrau (vê) o silêncio te devolve  a      p      e      l      e (desperta) reconhece o limiar não pelo b r i l h o mas pela certeza (súbita) de que os nomes já não pesam e as horas perdem                                     a urgência das marés

o dia

o     dia           cai dentro  de mim não é luz é abertura uma coisa   pequena insiste in siste na ferida e eu         vi              vo não         inteiro mas          ainda  

cicatrizes

  To be alive at all is to have scars. John Steinbeck estar         vivo é isto: uma pele que         não  esquece a queda (o sangue    uma forma      de memória)       e depois o corpo insiste (abre os olhos     abre a ferida) abre o dia

continuar

continuar simplesmente continuar ninguém pede  uma alma antes de a dar pedes-me um poema  e por um instante  és tu quem continua  através de mim - a tua vontade de dizer  sobrevive-me na mão  a minha falta de sono  que sempre me falta o meu cansaço  que não é meu talvez seja assim  que continue como alguém que ainda se deixa simplesmente  continuar

o escritor

O propósito da literatura é transformar o sangue em tinta. T.S. Eliot           Os hospitais fecham à mesma hora, os sinos repetem a ferrugem do ar, um homem dobra o jornal   como quem fecha uma urna portátil. Há um odor de ferro          sob as unhas da tarde. Os eléctricos continuam a passar por ruas onde ninguém espera profetas, apenas o padeiro,                              o funcionário, a mulher que recolhe da corda   camisas mais brancas que a memória. Disseram que a palavra redime.  Mas a palavra conhece o sabor das moedas,                o pó das bibliotecas, o silêncio administrativo dos arquivos. Que espécie de alquimia troca a pulsação                  pela caligrafia? O sangue nunca consente.   Circula ainda, teimoso animal subterrâneo...

etiquetas

I don't believe in astrology; I’m a Sagittarius and we’re skeptical.  Artur Clark Afirmas com a confiança   de quem acabou              de provar o contrário. Não acreditas na Astrologia    mas o teu argumento     vem com  a etiqueta do zodíaco. Céptico, claro. Mas só até Mercúrio                             retrógrado   inspirar-te o próximo livro.

a hora dos monstros

Para Antonio Gramsci o velho mundo desaprende                       o próprio nome o novo mundo                          ainda respira debaixo da terra   como uma raiz à procura de luz entre um mundo e outro               há uma porta          sem dobradiças é aí que os monstros                  fazem morada não nascem  são o intervalo -                         a sombra  que a mudança projecta antes         de nomear                          o rosto

o operário

Detesto a ferrugem do que já foi dito. As coisas  pedem obediência: a pedra exige peso, o relógio exige horas, o mapa insiste onde o horizonte acaba e a tinta se esgota. Mas há um lugar que nenhum alicerce alcança. Ali, o pensamento aprende o ofício dos vulcões. Não aceita a paisagem. Acende outra & outra. Com as mãos vazias fabrica oceanos para peixes sem nome, ergue árvores, frutos que amadurecem antes da semente, e ergue vastas cidades onde janelas sem luz olham para dentro dos sonhos. Não sabem que toda a ponte foi primeiro desobediência, toda a estrela desenhada na infância  foi um ensaio para incendiar o universo. A realidade é a primeira versão que não acaba de escrever-se. E eu, operário do impossível, entro todos os dias na fábrica silenciosa da imaginação, onde o que existe nunca ordena e o desejo aprende vagarosamente a existir.  

Naufrágio

todo o livro                        é um barco        que regressa sem o mar        entre a ideia e a página                         naufraga o inefável

soneto absurdo

Somos todos AI - Alguém diz por aí, mas calma lá, menina, com o Inglês, que à língua mãe isso não fica bem, digo, inglesismos não, - fora d' aqui. Imperialismo verbal - Ai de mim!! era mesmo o que nos faltava ver, certa IA, sem sequer o aperceber, vai reclamando o aí, como assim. Abaixo qualquer maneio que divide, abaixo o preconceito que apequena, abaixo tudo que em baixo se mede, abaixo o abaixo que a tudo condena, que a língua, afinal, ninguém impede de ser ao mesmo tempo tua e minha.

as palavras certas

um dia  (finalmente) as palavras hão de encontrar-se  (simples) não como                     pedras/                                      gritos/  mas como a queda de uma folha  (tão óbvia) sem o medo  do        rigor                   ou                          espaço serão apenas:  ser. assim.               (como                    sem peso)         

ausência

 se  tudo   o que    ofereceres não  for   suficiente      oferece     a  tua au   sên    cia (c o m o   u m a porta    que      se fecha       sem         ruído) há  silêncios    que     curam mais      do       que p a            la                        vr                       a s (gestos            cansados promessas                   vazias) há  presenças    que     pesam c o m o       móveis          antigos                       numa                             casa                                  que                                       já                                            não                                                  te                                              ...

isto não é nada

(isto não é nada) escrevo -                  a palavra escorre pelo branco não é poesia -                           confissão                                             diletância                                                               grito escrevo -                           o rasto de uma letra                           a meio de uma linha (isto não é nada) e no entanto                             ...

a floresta

1. a árvore não            absolve  nem condena     desconhece o bem e o mal o rio transporta     consigo               a carga        de ninguém a montanha                     não cobra portagens     entre a pedra                  e o musgo     o pássaro canta  porque o ar       lhe cabe na garganta a chuva cai       (com          a mesma                        mão) sobre             a semente       e o sémen 2. inventamos                        espelhos       para medir o rosto    ...

moralidades

  a natureza não perdoa (coisas pequenas)    um lobo não é (ob       via              mente) mau apenas mais faminto(que    o veado rápido) a flor fraca que quebra que mo r r e não está a ser punida (não há juiz  não há júri s ó o vento  que passa) (em cima   como embaixo não há contabilistas do pecado) SÓ            o forte    segue             sendo o       que   SOBRE v i v e

inventam-te

         Ninguém chega com os olhos vazios.    Trazem já um retrato dobrado no bolso, uma moldura à procura de um rosto. Não te veem. Medem-te com réguas herdadas, vestem-te com palavras antigas, confundem a tua respiração com o eco das próprias vozes. És, para cada um, uma imitação imperfeita. Quem te chama luz talvez precise apenas de um lugar onde descansar                      a sombra. E tu, que julgavas oferecer um espelho,    descobres que és um vidro baço onde cada olhar esboça o molde da própria face. Há quem te invente  como tudo,        há quem te invente como nada,          há quem faça da tua ausência uma culpa, e da tua presença           uma ameaça. Nenhuma dessas figuras       aprendeu o teu nome.        

os 3 pês

pensamento - coisa não há distância entre  nomear                  e ser o olho fixa       a mármore quebra in the mind’s eye  existe o que                        ainda  não tocaste pedra             palavra                            peso   tudo numa só             queda  

paisagens

Hoje nada tenho a dizer, e por isso falo. As palavras, quando perdem o destino, aprendem a caminhar descalças.     Sentam-se ao lado das pedras, escutam o pó, contam os segundos como quem descasca uma romã e encontra sementes de silêncio.  Hoje nada tenho a dizer,                e por isso a voz  deixa de ser ferramenta, torna-se paisagem. Falo para que o vazio não obscureça.        Falo porque o eco    precisa de um corpo onde cair.      A frase falha: quando abre     cada janela para um abrigo     de gente inabitável. Talvez seja isso  a linguagem - um incêndio lento onde a luz devora nomes & paredes. Hoje não nada tenho a dizer. Mas a boca persiste -  cada rio  desconhece  o mar, mas não desiste de inventar      a revolta no seu caminhar.

auditório

​ The less talent they have,  the more pride, vanity and arrogance they have.  All these fools, however, find other fools who applaud them . Erasmus Roterodamus Quanto menor                       a chama, maior a fumaça. E há sempre quem a confunda com                   o incêndio.