Mensagens

náusea

Sachez avoir tort. Le monde est rempli de gens qui ont raison. C'est pour cela qu'il écoeure. Louis-Ferdinand Céline  admite que erras este mundo é  superlativamente habitado por gente que  (nunca) erra uma espécie de náusea              a alimentar       a fome de vida 

respiração

Do you hate people? I don't hate them... I just feel better when they're not around. Charles Bukowski não-odeio-pessoas mas    prefiro-as distantes (as estrelas             são mais belas  tanto mais distantes) a-gente-perto-demais sufoca o ar         fica              espesso de        palavras o silêncio é    o único amigo        que não     pede nada não-as-odeio apenas        respiro melhor        sozinho

a humanidade

a humanidade é um polvo de mentiras tentáculos cegos a-c-i-d-e-n-t-al   mente abraçam                  -se como        raízes  invisíveis (de uma árvore milenar)  quanto mais fundo cavamos mais somos a meta         (morfose)  perfeita da  mentira

o poema

Se a poesia fosse um deus, não perguntaria quem reza. Perguntaria quem escuta. Seria boa? Num dia, uma ferida aberta. Noutro, água sobre a ferida. Seria má? Às vezes, sim. Às vezes, não. Dependeria do poema. Como a chuva depende da nuvem. Como o espelho depende do rosto. O deus seria o mesmo. O verso, não.

escrever

Escrever é trabalhar  sem aplausos. A palavra: martelo. O silêncio: oficina. No fim do dia, fica o pó        das mãos   e uma frase       ainda  de pé.

acontecer

o que muda   em mim   muda   não o mundo - mas   acontece   interiormente   desarrumo o real   e então   sem aviso   sem razão   a realidade   faz-se   acontecer

o propagandista

The propagandist's purpose is to make one set of people forget that certain other sets of people are human. Aldous Huxley Preâmbulo Primeiro ensinam o nome errado para as coisas certas. Depois ensinam o nome certo para as coisas erradas. Até que a palavra eles perca o peso de um coração e ganhe o peso de uma pedra. 1ª dança O propagandista não precisa de mentiras -              só de pausas estratégicas,  de fotografias escolhidas a dedo, de um microfone sempre apontado para o choro de um lado,                     nunca para o outro lado. Há uma técnica antiga: repete-se um som até ele perder sentido. Casa. Casa. Casa. Casa. Já não é casa - é ruído. Com os humanos funciona igual. Eles. Eles. Eles. Eles. Até que não sejam ninguém. O objectivo não é o ódio. O ódio é trabalhoso, exige energia, pressupõe algum reconhecimento. O objetivo é a indiferença - coisa mais fria         ...

corpos I

um corpo encontra  outro corpo entre ambos, o mundo corrige o seu eixo as mãos não sabem filosofia mas reconhecem o regresso por um instante a terra deixa de procurar  o próprio nome: um corpo que afirma o mistério de outro corpo e o mundo                      enfim  encontra-se            a si mesmo

corpos II

a noite   abre os olhos   e do seu centro   sobe um nome   feito de neblina   as paredes   respiram devagar   a terra chama                            a terra   a luz chama                               a luz   o corpo   desce  ao centro do                        silêncio   e espera   mãos traçam círculos   no ar      como quem acorda     uma memória antiga   nome após nome   ergue‑se                  do pó   num murmúrio  lento   e cada gesto é  uma oferenda   cada              ...

perplexidade

(a suspensão entre  o saber & o não saber não é simples ignorância  é o momento  em que a realidade  se                torna opaca - o olhar que  confronta  o inesperado a contradição  ou o excesso  de sentido fazendo vacilar  certezas nesse espaço  a razão hesita e a        linguagem tropeça o sujeito experimenta  a forma       de um estranheza essencial: algo   que não se encaixa     na lógica corrente e ainda               não há nome para o que           escapa ao rótulo  (e de repente o peixe descobre  a água   o mapa desaprende  o território  o zero dança redondo      como um deus e o pássaro               hesita no ar    não porque o vento mudasse mas porque o voo pergunta: voar para qu...

simplicidade

   quem escreve para  i-d-i-o-t-a-s traça letras simples   pedras no chão   sem curvas         & abismos      o mundo inteiro   tropeça nelas   & aplaude

as vezes que morreste

Não houve gritos. Nem testemunhas. Apenas a chávena partida sobre a mesa, o nome indizível dito por engano, a chave que deixou de abrir a porta. Morreste na língua que aprendeste a calar, na confiança abandonada à chuva tropical, em quartos onde dobraste a roupa do futuro como quem arruma o corpo rasgado em uso. Morreste de pequenas amputações: o espanto, a imprudência, a fé de que o amor reconhece  cegamente  o caminho para casa. E, no entanto, todas as manhãs alguém empurrava o coração para diante como se acendesse um fogão antigo, com gestos repensados de heroísmo. Viveste. Com o rosto remendado por perdas, bebendo água, pagando contas, regando plantas quase secas, aprendendo a rir com tristeza. Quantas vezes morreste? Talvez tantas em vida que deixaste de contar: uma arte obscura de regressos, o ofício de recolher os próprios ossos depois de cada incêndio invisível, e erguer-se outra vez, não intacto, mas habitável.

A Gravidade

a mão hesitou o copo caiu                   na mesma o chão não perguntou         se foi acidente     antes de se partir

estupidez I

Stupidity is the same as evil if you judge by the results. Margaret Atwood A estupidez disse: - Não foi por mal . Mas a porta continua selada. E o frio não distingue intenções.

estupidez II

Para Margaret Atwood  A estupidez tem mãos limpas. Chega de sapatos engraxados. Pede licença, sorri para as crianças, traz uma travessa para a mesa do domingo. Não anuncia incêndios. Diz: não sabia, não pensei, ninguém me explicou a dimensão, o sentido, a consequência. Enquanto isso, as plantas secam nos vasos, os peixes aparecem de barriga branca junto às margens, alguém aprende a baixar a voz para caber dentro do medo. A maldade, imaginávamos, teria dentes visíveis e agudos, o prazer inequívoco da ferida. Mas não. Quase sempre usa óculos gastos sobre papéis, carimba formulários, repete frases como quem dobra lençóis. Não foi por ódio, dizem. Foi distracção. Preguiça da dúvida. Fome de obedecer. O conforto macio de deixar que o pensamento seja da autoria de outros. No fim, os resultados alinham-se na luz fria da cozinha: os pratos partidos, as portas vazias, os nomes apagados silenciosamente da memória dos vivos. Os senhores do mundo, esses contadores de estórias sem piedade...

inadaptados

sempre                   gostei dos que falham  o horário do        combóio     porque param pra ver  um insecto   morto dos que         não acertam papéis          no lixo      ou esquecem  o prazo  do imposto dos que               atrasam o jantar ao desmontar a torneira            que pinga dos que                dormem com a luz acesa porque o escuro tem a forma      de um mundo              arrumado

a prisão

não havia grades       ninguém falou  em prisão   deram-te ruas   nomes                 horas   nunca tentaste sair   nunca te                   disseram   que estavas                        dentro 

cicatrizes

As cicatrizes não são feridas. São a caligrafia irregular que o tempo deixou sobre a matéria. Há uma luz áspera em cada marca, como se a pele guardasse fragmentos de tempestades antigas. O mármore não sangra. O metal não sonha. As estátuas atravessam séculos sem uma única cicatriz.  Somos feitos de quedas, incêndios, portas fechadas, amores residentes ou vagabundagens. Cada sinal gravado no corpo ou no invisível é uma testemunha silenciosa chamada a depor: - Sim, este ser humano passou por aqui. Sentiu o peso da noite. Conheceu o frio. Perdeu. Recomeçou.  As cicatrizes não falam de dor. Falam de permanência. Paisagens que o tempo gravou no corpo faminto que a fome abraçou.

o leitor

A paz é isto: a negação do gesto,    um espaço a voar que não se abre. Escrever  como quem   respira para                   dentro.  Nenhuma porta. Nenhum ruído. Só a frase     voltada para si mesma, intocável,                    intocada                    Publicar seria      um passo a mais  antes do passo -     a palavra descansa.  Pura vibração, puro ser, um eco que dispensa  o eco.   Talvez escrever  seja apenas isto:         habitar o invisível  onde o silêncio       é o verdadeiro leitor.

a margem

A slave is one who waits  for someone to come  and free him.  Ezra Pound                          Não esperes. A corrente aprende o pulso antes do ferro. Vi homens sentados à sombra de colunas,  contando                       as sandálias dos deuses                   como quem conta moedas.                                             Esperavam. O mar não enviou arautos.              A montanha não se moveu.  Nenhuma águia transportou                          a chave do enigma.  A espera rompeu a pedra               sem testemunhas. E...