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acontecer

o que muda   em mim   muda   não o mundo - mas   acontece   interiormente   desarrumo o real   e então   sem aviso   sem razão   a realidade   faz-se   acontecer

o propagandista

The propagandist's purpose is to make one set of people forget that certain other sets of people are human. Aldous Huxley Preâmbulo Primeiro ensinam o nome errado para as coisas certas. Depois ensinam o nome certo para as coisas erradas. Até que a palavra eles perca o peso de um coração e ganhe o peso de uma pedra. 1ª dança O propagandista não precisa de mentiras -              só de pausas estratégicas,  de fotografias escolhidas a dedo, de um microfone sempre apontado para o choro de um lado,                     nunca para o outro lado. Há uma técnica antiga: repete-se um som até ele perder sentido. Casa. Casa. Casa. Casa. Já não é casa - é ruído. Com os humanos funciona igual. Eles. Eles. Eles. Eles. Até que não sejam ninguém. O objectivo não é o ódio. O ódio é trabalhoso, exige energia, pressupõe algum reconhecimento. O objetivo é a indiferença - coisa mais fria         ...

corpos I

um corpo encontra  outro corpo entre ambos, o mundo corrige o seu eixo as mãos não sabem filosofia mas reconhecem o regresso por um instante a terra deixa de procurar  o próprio nome: um corpo que afirma o mistério de outro corpo e o mundo                      enfim  encontra-se            a si mesmo

corpos II

a noite   abre os olhos   e do seu centro   sobe um nome   feito de neblina   as paredes   respiram devagar   a terra chama                            a terra   a luz chama                               a luz   o corpo   desce  ao centro do                        silêncio   e espera   mãos traçam círculos   no ar      como quem acorda     uma memória antiga   nome após nome   ergue‑se                  do pó   num murmúrio  lento   e cada gesto é  uma oferenda   cada              ...

perplexidade

(a suspensão entre  o saber & o não saber não é simples ignorância  é o momento  em que a realidade  se                torna opaca - o olhar que  confronta  o inesperado a contradição  ou o excesso  de sentido fazendo vacilar  certezas nesse espaço  a razão hesita e a        linguagem tropeça o sujeito experimenta  a forma       de um estranheza essencial: algo   que não se encaixa     na lógica corrente e ainda               não há nome para o que           escapa ao rótulo  (e de repente o peixe descobre  a água   o mapa desaprende  o território  o zero dança redondo      como um deus e o pássaro               hesita no ar    não porque o vento mudasse mas porque o voo pergunta: voar para qu...