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idiotamente

Esse jovem, já me informei,  é um caso muito difícil - disse a voz com hálito de café queimado por detrás do biombo. Um biombo: há sempre um biombo quando a cobardia decide  tirar uma licenciatura. Fiquei a interrogar-me sobre a sábia natureza de quem prevê futuros como quem aposta em cavalos coxos sem abandonar a cadeira. Profetas de secretária xadrezistas de peças  invisíveis, exercício  de pequenos poderes. Joguinhos, claro. De adultos mal resolvidos que nunca aprenderam  a perder n em a calar. Já não gasto saliva. A saliva é cara e os idiotas são uma raça abundante. Concluí:  um idiota. é mais um idiota a rodar alegremente no carrossel da idiotice, bilhete vitalício, música alta para não ouvir o protesto do  neurónio vazio. E lá vai ele, mais uma voltinha, mão no acelerador, olhos fechados, convencido de que manda no mundo porque controla a velocidade do vazio. Eu? Desci do carrossel. viajo sem bilhete, não falo atr...

os lusíadas

Lucros cantam melhor que as musas ou o evangelho segundo o lucro.  no princípio não estavam as gentes. estava o lucro. e o lucro viu o nome os lusíadas e disse: isto é bom para vender. camões não escreveu um livro. escreveu um rótulo antes do tempo. para que um tipo de fato branco charuto apagado nos lábios e um sorriso de contabilista pegasse no título e o pendurasse numa fábrica de enchidos. o erro dele foi pensar em homens. o acerto deles foi pensar em números. as gentes dão problemas: faltam, reclamam, morrem. o lucro não. o lucro não falta, não morre, não pergunta de onde vem a carne. há uma linha de produção onde o verso entra inteiro e sai moído. não sobra metáfora, só enchido de porco. as musas? de avental manchado enquanto a carne passa pela máquina como a pátria passa pela história: triturada, temperada, embalada no vácuo. camões, querias cantar homens maiores que o medo deram-te homens menores que o lucro. o épico agora vem fati...

o pó nos sapatos

Para Hilda Hilst que as palavras te acompanhem mesmo quando fingem silêncio.    Homens do nosso tempo não vos escrevo para embalar o sono. Escrevo com a luz acesa e a porta aberta - quem entra, assuma o pó nos sapatos. Falais de progresso, a boca cheia de estatísticas. Mas no prato há sempre o mesmo osso e alguém fica a roer o silêncio. Aprendestes a dizer  ordem como quem diz  amanhã . Uma palavra limpa, lavada em gabinetes, enquanto na rua se aprende a gramática da fome. Não vos falo de amor como quem vende perfumes. Amor aqui é um método rude: olhar de frente para o outro sem desviar os olhos. Homens do nosso tempo , construireis máquinas sencientes, mas haveis pedido aos homens que desaprendessem de sentir. Chamastes eficiência à pressa de esmagar perguntas. A poesia, dizeis, não serve. Serve pouco, muito pouco. Como uma lâmpada mal pendurada numa sala de interrogatórios: não resolve o caso, mas impede a escuridão completa. Sei bem: preferis versos obedientes, do...

fuzilamentos

Os Fuzilamentos de Goya (com lanternas na garganta da noite) A colina respira pólvora. Madrid inclina-se para ouvir o estalo breve do mundo a quebrar. Há um sino que não toca, há um relógio sem números - o tempo aprende ajoelhado. Alinham-se como frases interrompidas, homens com nomes guardados no bolso, cartas que nunca foram abertas, um pão que ainda morna na memória. A noite passa-lhes a mão pelo ombro e diz:  esquece. Ao centro, a lanterna. Não é luz, é um interrogatório. Ilumina a camisa branca como quem sublinha um erro fatal  no manuscrito da história. Braços abertos:  não é prece, é espanto que encontrou lugar. O pelotão é um plural sem rosto. Botas conjugam o verbo obedecer. Os olhos não aprendem a ver; aprendem a apagar a visão. Há uma geometria fria que mede a distância  entre o coração  e chama a isso ordem. No chão, o sangue ensaia uma nova caligrafia, vermelho que tenta dizer nós antes de se tornar silêncio. Um cão di...